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GIORGIO AMADO

  • Foto do escritor: Branca Martins
    Branca Martins
  • 21 de out. de 2020
  • 6 min de leitura

(um pequeno conto sobre uma grande vida)

Abandonado na vizinhança, ele andava de porta em porta e alguns lhe davam água e ração. Isso era muito comum na nossa rua. Vários outros cães eram abandonados por aqui. Pitchulina e Totó foram adotados aqui e os amamos muito, até o finalzinho de suas vidas. Na época tínhamos estes dois, além de outros 4. Dois ficavam no serviço de meu marido e quatro em casa, por isso entendíamos que não podíamos nem pensar em adotar mais um.

Giorgio era um cachorro grande, magnífico, majestoso que, como a maioria dos sem raça abandonados, provavelmente não foi entendido ou valorizado, talvez por isso abandonado. (Para sorte nossa! Entendemos depois.)

Como era muito grande, algumas pessoas tinham medo dele; ele se impunha com autoridade, olhar firme e majestoso; ao mesmo tempo era um gentleman, gentil e educado; e conosco era terno e amoroso. Ele havia nos escolhido, devido a uma sintonia que só ele havia percebido.

Vagava pelo bairro e sempre parava aqui em nosso portão. Até que um dia resolveu fazer dele seu lar. Passeava e sempre voltava para um cantinho coberto do lado de fora. Temíamos que, em uma dessas voltas, alguém o achasse interessante para ser cão de guarda e o prendesse no fundo do quintal. Acho mesmo que ele até tentou fazer esse papel aqui conosco. Quando alguém de fora precisava entrar, amigos ou alunos, ele latia e os amedrontava, avisando que estava nos protegendo. Ficamos preocupados e, infelizmente, resolvemos procurar um lar para ele. Além da inconveniência de assustar as pessoas, não achávamos justo mantê-lo do lado de fora do portão.

Conversamos com os vizinhos até convencermos a família do Carlos a ficar com ele. Carlos tinha se mudado para a rua havia alguns meses, com os pais e dois cães. Alguma tragédia inexplicável aconteceu naquela família. Os dois cães morreram em algumas semanas e depois a mãe adoeceu e faleceu também. Carlos ficou morando só com o pai então resolveram adotar o Giorgio.

Na verdade, na época ele não tinha esse nome. Todos o chamavam de “Negão", um nome despersonalizado, somente generalizado por estar associado ao tamanho gigante e a seu pelo negro e brilhante.

Carlos o levava regularmente para passear, solto, sem guia; os três formaram um bom lar e estavam bem adaptados, até que seu pai veio a falecer. Como disse, muita tragédia inexplicável. Ele decide ir morar com o irmão em outra cidade e não poderia levar o Negão porque o irmão, além de morar em apartamento, já tinha um cachorro. Conclusão: ficamos com a chave do portão da casa deles e íamos todos os dias cuidar do Negão, na função outra vez de procurar um lar pra ele.

Conseguimos que amigos de uma amiga se interessassem por ele. O rapaz, um adolescente gentil e amoroso, veio com o pai em uma caminhonete, numa noite de domingo, buscá-lo. Era bem tarde e me lembro do garoto, abraçado ao Negão no banco de trás da caminhonete e, partindo. Foi uma cena triste, mas ao mesmo tempo esperançosa. Nós sonhávamos que, finalmente, ele teria um lar definitivo e amoroso.

Bem cedo, na manhã do dia seguinte, eu já estava trabalhando, uma amiga me ligou e disse: “Sabe quem está aqui?" O coração tremeu: era ele, o querido amigo que tinha voltado pro nosso portão. Tinha andado 13 quilômetros, atravessado a cidade por vários bairros, pontes e ruas, vencendo o trânsito e talvez a arrogância e o maltrato das pessoas que tinham medo ou não gostavam dele. Que ignorância a nossa não ter percebido que ele era um presente que estava se oferecendo para ficar conosco!

Ligamos para os adotantes e o pai do garoto veio buscar o lindo peludo. Tristes, o entregamos, com a sensação que estávamos fazendo a coisa certa.

Todos os fins de semana íamos visitar uns parentes e, na volta, passávamos pela casa onde ele estava. Parávamos no portão, fazíamos carinho nele, conversávamos um pouco e saíamos tristes, como se estivéssemos deixando um tesouro. Essa opção era sempre consciente de ser a mais acertada.

Uma noite de sexta feira, fomos jantar com meu irmão e cunhada em um restaurante e conversamos sobre ele. Nós falamos de nossa tristeza por tê-lo doado e que tínhamos a sensação que ele não estava feliz em seu novo lar. Meu irmão perguntou porque não ficávamos com ele. Dissemos que era impossível pegá-lo de volta, afinal nós o tínhamos doado e agora ele tinha um lar. Além disso, como arcar com as despesas de mais um cachorro grande? Quatro de nossos seis já eram bem grandes e economicamente o gasto era enorme com alimento, veterinário, etc. Meu irmão disse: “Vai pegar o Negão que eu o sustento, fico padrinho dele e assumo todos os gastos que vocês tiverem com ele." Nós demos umas boas risadas, pelo que só poderia ser uma piada, já que isso seria impossível... e nos despedimos.

Chegamos em casa por volta de meia noite e fomos deitar. Às 4 horas da manhã, o telefone tocou e era nossa filha, voltando de um show. Ela disse: “Mãe, o Negão está aqui na rua, sozinho, acho que está perdido! Ele não está bem, está feio e com fome, rodeando uma barraca de cachorro quente!"

Essa coincidência não poderia ser ignorada. Tínhamos acabado de conversar sobre ele, meu irmão tinha acabado de dizer que se responsabilizaria por ele e nossa filha o reconheceu na rua. Imaginamos que talvez ele estivesse procurando o caminho de voltar pra nossa casa. A reação foi imediata: “Ponha o Negão no carro e traga-o pra cá!"

Levantamos e fomos lá fora para encontrá-los. Ele já estava fazendo o reconhecimento da vizinhança e, quando me viu, veio correndo ao meu encontro. Tenho gravada olhos e no coração essa cena muito emocionante. Parecia querer me abraçar! Ficamos tão felizes!

Os adotantes não o procuraram. Estranhamos, mas gostamos, porque nunca mais deixaríamos que alguém o levasse. Aquela energia, igual a uma união de matilha, tinha se tornado realmente muito forte!

Alguém poderia pensar: "Que exagero! É só um cachorro!". Alguém poderia julgar que fosse um desequilíbrio, justificando que animais não são gente. Realmente ainda não sabemos muito a respeito das diferentes formas de vida, mas já sabemos que os não-humanos são seres sencientes, que têm emoções, sentem medo, alegria, dor e fazem vínculos. Chegamos à conclusão que Francisco já sabia disso, uma vez que se sintonizava com os animais, chamando-os de irmãos. E foi assim com Giorgio, que nos assumiu como matilha/família, antes que nós tivéssemos compreendido isso.

Decidimos que ele ficaria na empresa de meu marido, com as duas meninas caninas que moravam lá. Adaptou-se bem, entretanto algo não deu certo com seu nome. Os garotos que trabalhavam na empresa acharam que, quando eles chamassem o "Negão", algum homem da cor preta, que estivesse passando por lá, poderia achar que era com ele e não gostar, então decidiram mudar seu nome para “Jorjão". Ele logo se acostumou e não pareceu se incomodar.

Os três imensos cachorros se tornaram bons amigos. Foram se ajeitando e aprendendo algumas artimanhas de convivência com os humanos, que, às vezes, em alguma comemoração, faziam churrasco e viam suas comidas desaparecerem, sem que entendessem como. Às vezes davam umas escapadas, mas voltavam e estava tudo certo, até que um dia a empresa fechou e tiveram sua composição familiar canina, reorganizada. As duas meninas foram morar com meu irmão e, finalmente, o querido Jorjão veio para casa. Resolvi sofisticar seu nome e o chamei de "Giorgio”, porque achava que se encaixava perfeitamente com o charme dele.

Houve muitas batalhas por aqui com os 5 cães. Totó, que tinha sido tirado de maus tratos na rua, era epilético e tinha ataques tenebrosos. Nesses momentos nós precisávamos nos proteger porque ele avançava, agressivo e irreconhecível. Muitas vezes os dois cães brigavam a ponto de o Totó ficar muito machucado. Supomos que Giorgio não admitia sua fúria e tentava submetê-lo.

O tempo se encarregou de ajustar os relacionamentos, até que Totó partiu, durante um ataque epilético muito forte. A vida, devagar, também foi levando uma por uma de nossas queridas meninas: Telma, Amanda e Liza. As duas outras, Livy e Pitchulina, que moravam com meu irmão, vieram pra casa e ficaram com o Giorgio até que ele também partiu. Uma manhã o procuramos e o encontramos, deitado ao lado do portão, que ele um dia tinha adotado como seu, olhando pra fora, da forma que ele gostava. Só que, dessa vez, foi a derradeira.

Antes desse grupo de cães, havíamos tido outros, mas ainda não tínhamos a compreensão sobre os animais serem sencientes e maravilhosos. Depois dessa percepção, aprendemos, mudamos e compensamos o que não tínhamos conseguido fazer antes.

Desses queridos para cá, já adotamos alguns outros, com sensibilidade e respeito. Todos foram e têm sido muito amados, mas somente um, Giorgio Amado, teve o adjetivo "amado" registrado como sobrenome.

Quem sabe, um dia, a exemplo de Francisco, percebamos que todos somos irmãos e consigamos adicionar esse sobrenome amado a todos os animais não-humanos ...e aos humanos também!

8 comentários


Branca Martins
Branca Martins
24 de mai. de 2023

Olá querida, você sabe muito bem o que é ter conexão de alma com um cão e percebermos sua pureza e sinceridade. Os bons amigos também descobrem esse canal! Bjo

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Ketty Danon
30 de nov. de 2022

Que linda, a história do Giorgio Amado. Me lembra as histórias das minhas queridas Josh, Dudinka e Bali. Todas amadas…

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Branca Martins
Branca Martins
24 de mai. de 2023
Respondendo a

Ketty querida, como não nos apaixonar pelos que se comunicam diretamente em nossas almas, não é? Amar conforta a função e nos estimula a continuar. Bjo

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guido.jeferson
guido.jeferson
30 de nov. de 2022

Mais um texto daqueles que me deixam com os olhos marejados do começo ao fim. Mais um texto sensível e comovente cuja autora, corajosa, se revela novamente. Revela sensibilidade, compaixão, empatia, altruísmo e reflexão. Parabéns professora, seu lema se concretiza: "cada vez melhor"

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Branca Martins
Branca Martins
24 de mai. de 2023
Respondendo a

Difícil não se emocionar quando nos sentimos conectados com a essência desses seres puros e apaixonantes, não é? Obrigada querido, sei que você está nessa sintonia. B.

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mmgazzi67
26 de out. de 2020

Que lindo Giorgio! Que lindo relato, me emocionei muito

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Branca Martins
Branca Martins
24 de mai. de 2023
Respondendo a

Entendi ... Tentei reler, mas a emoção não me deixou terminar. bjo

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megebran
megebran
22 de out. de 2020

Belissima e emocionante a estória da vida deste cãozinho.

Ainda mais com o amor e dedicação que os adotantes proporcionaram

Sinto orgulho de vocês.Parabéns


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