A REFEIÇÃO: MOMENTO DE ENCONTROS E DESENCONTROS (Parte 15 - "Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 25 de jan. de 2023
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ITÁLIA - ALMOÇO NA FAZENDA
Enquanto Giácomo preparava o almoço, eles foram andar pela fazenda.
Visitar as vaquinhas foi um momento marcante. A princípio, Gregório ficou feliz em vê-las, mas, quando uma delas olhou diretamente em seus olhos, ele tremeu emocionado, sentindo um calafrio, como se ela estivesse se comunicando com ele. Tentou tocar a cabeça dela e paralisou, sem conseguir sair dali por alguns instantes.
- Entendeu o que ela quis dizer? – ouviu uma voz de menina.

Gregório assustou, mas sorriu, ao ver Mariana, a jovem namorada de Luca, primo de Giovanni.
- Ela está dizendo que não é feliz.
- Não é feliz? – repetiu Gregório, pois não sabia se tinha entendido bem o que ela dissera.
Mariana, com ar agitado, explodiu com um vocabulário tenso, para expressar seu desgosto ao ver animais presos.
Grego tentou desconversar, mas ela insistiu com um discurso sobre as pegadas dos seres humanos no planeta e os prejuízos que causam ao meio ambiente.
Ao chegarem à mesa, sentou-se ao lado dele e continuou reclamando e criticando.
Felizmente chegou Luca e sentou-se no meio dos dois. Cumprimentou Grego com um sorriso e olhou feio para Mariana:
- Amore, vamos mudar de assunto? Essa conversa é muito negativa.
- Não é negativa, é só a verdade! – diz ela. Animais são seres sencientes, têm emoções, sensibilidade, por isso são muito melhores que gente, que são egoístas e, piores que uma infestação de cupins, sugam tudo que encontram.
- Está ok, amore, mas não se esqueça que você também é gente. Todos nós somos gente que comemos e usufruímos do planeta!! E nem todos nós somos insensíveis! Não pode generalizar!
Ela se levanta, irritada, e sai batendo os pés.
O clima naquele canto da mesa ficou pesado e Luca tentou desculpá-la, dizendo que ela era sensível e não suportava ver animais sendo usados. Ficava muito irritada com as pessoas que se dizem superiores a eles. Entretanto explodia em revolta e queria envolver todos em seu ódio.
- Ela fica brava porque eu não concordo em odiar as pessoas pelo que elas acreditam! – disse Luca – Ela é uma menina mimada! É inteligente e sensível, mas tem cegueira emocional! Fica ansiosa e agressiva! Odeia quem não vê a realidade como ela vê! Tenho que ser firme com ela, senão ela passa dos limites!
Depois tentou disfarçar, puxando outro assunto, mas não conseguiu evitar a inquietude. Pediu desculpas e saiu, indo atrás dela.
Emburrada num canto do pátio, parecia não querer conversar e começou a gesticular exaltada, enquanto Luca insistia que se comportasse.
Depois de alguns minutos os dois voltaram à mesa e a conversa se manteve superficial, até que Giovanni se aproximou e cutucou Mariana, com seu jeito carinhoso de provocar: "Veganismo é nossa ruína!"
Ela atirou um pedaço de pão nele e todos riram, descontraindo o clima.
Depois do "primo piatto", Giácomo perguntou se Grego queria repetir. Feliz, aceitou e recebeu mais um prato cheio de spaghetti. A seguir chegou o segundo prato, depois o terceiro, depois a mesa ficou cheia de legumes, queijos, peras, carnes, saladas, bebidas e depois morangos e tortas e, quando todos estavam estourando de tanto comer, beber e conversar, vieram os licores.

Gregório, que havia se arrependido de ter repetido o "primo piatto”, saiu para andar.
Adelaide e vó Ecco, que estavam se despedindo das vaquinhas, acenaram para Gregório ir encontrá-las.
De novo, sentiu o olhar de uma delas e pediu perdão por não saber o que pensar ou dizer.

Dona Nicoletta percebeu e se aproximou dele:
- È così, meu filho, não mudamos o mundo, mas podemos mudar a nós mesmos. Às vezes não é fácil, mas podemos fazer nossa parte e ficar bem, mesmo não gostando do que presenciamos.
- Todos aqui são tão queridos, não é vovó? – disse Adelaide. Depois, cochichou para Gregório: - Será que você também vai se tornar vegetariano?
"Opa!! Vamos com calma!" - pensou ele.
Ao se despedir e agradecer a acolhida calorosa dos amigos italianos, Gregório abraçou Mariana e lhe prometeu não esquecer suas palavras. Afinal, achava que ela tinha razão. Sua preocupação com a vida no planeta era incomum para sua idade. Tão jovem, tão bem informada e consciente das mudanças necessárias, não era fácil controlar sua energia adolescente. Teria que dar um desconto para sua impulsividade. Muitos ficavam antipatizados com sua intolerância e não lhe davam credibilidade. Até se tornavam ainda mais rígidos em suas opiniões, sentindo-se desafiados a ganhar o argumento, sem valorizar a importância de seu questionamento. Ela conseguia o contrário do que pretendia, aparentemente, mas um incômodo, com certeza, permanecia no ar e, quem sabe, fazia pensar.
Aquele dia tinha sido especialmente impactante. Grego estava decidido a considerar mudanças em seu comportamento e em sua dieta: pelos animais, pela saúde e pelo planeta. Sabia que isso envolveria muitas dificuldades. A empresa que estava pleiteando trabalhar lidava com produtos de origem animal. E agora? Além disso, como sair com os amigos e não comer o que eles comem? Será que teria que renunciar aos queijos? Como lidar com as diferenças?
Voltou ao Brasil levando, além de malas pesadas, a imagem daquelas vaquinhas. Sabia que nunca mais seria o mesmo, porque o olhar delas iria acompanhá-lo e denunciá-lo toda vez que seu paladar o carregasse a uma mesa com produtos de origem animal.
Entendeu o desafio: "olhar de frente... e ir em frente" e refez a decisão de fazer as mudanças que conseguisse, assim que... conseguisse.
Com amor.
Branca Martins




Mais um texto a colocar um novo olhar sobre o mundo, a nos trazer a sensação de contato com este seu sentimento piedoso pela tragédia animal e o desejo de abrandá-la; o impulso altruísta de ternura, de compaixão e empatia. Texto a provocar um transtorno emocional e nos fazer colidir com ideias fixas, mesquinharias e a tudo que nos repugna. Essa é a essência da literatura que, muito mais que as outras artes, pode trazer essa comunhão com outro espírito humano. Parabéns, professora, por sua literatura cada vez mais pungente, cada vez mais inquietante!!
Parabens por trazer momentos e sabores italianos, com a possibilidade de vermos os animais como seres reveladores da essência da vida.