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DEIXANDO A LUZ ENTRAR! (Parte 14 "Gregório e seus Amigos")

  • Foto do escritor: Branca Martins
    Branca Martins
  • 25 de mai. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2022

Iluminando as sombras do passado e vivendo o presente!

Ainda na Itália.

Manhã de primavera, fresquinha.


Gregório, Adelaide e Nicoletta foram a pé até a cidade, atravessando os jardins, os pastos e os campos do Agroturismo. O sol já brilhava nos pelos dos cavalos que, curiosos, chegavam até a cerca, bem pertinho.

- Que olhos gigantes!!! – disse Adelaide. - Parecem querer olhar dentro da gente!


Gregório arrancava punhados de capim do chão e lhes dava na boca. Eles abocanhavam, como se nunca tivessem comido aquilo.


- Nunca imaginei que os cavalos tivessem essa suavidade! Ao mesmo tempo que parecem bruscos e desajeitados – observou Adelaide, - transmitem uma energia tão gentil e penetrante!


Seguiram pela estradinha estreita, acompanhando um riacho com água cristalina e rodeado por flores e cores perfumadas. O campo verde à frente salpicava alegres papoulas vermelhas.

Algumas bicicletas passavam tocando sininhos e por vezes algum carro fazia com que eles se jogassem para a margem do riacho.


Nada lhes tiraria o bom humor e a sensação de flutuar, caminhando sem medo.


Entraram na pequena igreja, em silêncio, sentaram, num misto de descanso e meditação, e depois foram cumprimentar o pároco, o mesmo de anos atrás.

D. Eugenio, simpático e expansivo, ao ser apresentado a Gregório, brincou: “Veio para marcar o casamento?"


Convidou-os a sentar no jardim da igreja e relembrou a primeira vez que Nicoletta o visitou, com o marido, Anselmo. Como ela estava decidida a encontrar a casa onde tinha nascido e sabia que tinha sido batizada ali naquela igreja, foi solicitar ajuda de D. Eugenio. Com o registro do batismo, ele localizou o endereço da casa, onde agora habitava a família de Giovanni.


Muito gentil, o religioso ligou para a mãe de Giovanni, Adriana, que convidou o casal a visitá-los.

Acolhidos como membros da família, ficaram horas conversando e degustando de uma mesa farta e saborosa.


Na ocasião, Anselmo, envolvido com a felicidade de Ecco (como ele chamava Nicoletta), desviou a atenção de sua própria história. Até o momento em que Adriana, com seu jeito incisivo e assertivo, perguntou-lhe sobre suas origens:


- Nasci em Serravalle!

Para espanto de todos, ele revelou que havia nascido em Serravalle, uma cidade a 10 minutos dali.


- È così – pensou Ecco, - a vida é feita de surpresas! Como isso pôde acontecer? Tínhamos sido vizinhos na Itália, mas viemos a nos conhecer e casar no Brasil! Ele sabia disso e nunca quis revelar!


"Por que Anselmo escondeu o nome da pequena cidade, até mesmo em seus documentos?


Como Giovanni tinha um amigo em Serravalle, insistiu em levá-los até lá, acreditando agradar a Anselmo, mas ele ficou desconcertado, sem graça, tentando disfarçar:

- Que bobagem, eu era muito jovem, nem me lembro!


Ao saber que eram italianos, vindos de tão longe, o amigo de Giovanni, os convidou para conhecer sua mãezinha idosa.

Quando ela soube que a família de Anselmo era daquela cidade, perguntou:

- Você é filho do Mário?

E, a seu modo, começou a falar da guerra:

- Os alemães não nos tratavam mal, mas, se descobrissem alguma traição, eles sacrificavam 10 pessoas da cidade, escolhidas ao acaso.

Mudando o tom da voz, se dirigiu a Anselmo:

– Pobre Mário, che pecato!

Ele teve calafrios! E, antes que ela continuasse, despediu-se e saiu.


Nicoletta se emocionou ao narrar aquele momento, quando todos ficaram imóveis, sem entender.


Gregório ficou curioso e quis saber o que aconteceu.

Nicoletta respondeu que, antes daquela viagem, ela nada sabia de seu passado, a não ser que ele tinha entrado em um navio de carga e ido para o Brasil.


- Esses acontecimentos com sua família, que ele quis esconder, certamente deixaram traumas, que ele gostaria de esquecer, mas não conseguiu.

- Anselmo era depressivo. Parecia ter ódio de si mesmo. Não se perdoava por não ter conseguido consertar seu passado, proteger sua família e sua infância. Carregava sempre um veneno dentro dele. Isso pode ter causado a doença que acabou com ele e quase comigo também!

- Eu insistia que ele me contasse; ele negava e eu ficava muito brava por ele não confiar em mim.

- Eu não entendia. Hoje eu sei que não deveria ter insistido, porque o problema não era comigo. Eram dores de alma que ele não conseguia revelar!

- Sobrevivi! Não foi fácil, mas a função de viver foi mais forte. Não seria justo eu prejudicar a vida de Adelaide, além da minha própria vida!!!


O silêncio engoliu sua fala por alguns instantes, até que D. Eugenio interrompeu:


-Vamos parar com lembranças tristes? O passado já foi, minhas filhas! Quero saber de vocês, AGORA! Me falem do presente: como vocês estão?"


Ecco conta que ajudou Adelaide a assumir a flora de Anselmo: "Ecco La Flora" e, aos poucos, reorganizou sua vida. Conheceu outras mães e outras famílias que tinham tido problemas semelhantes e decidiu ser voluntária em um grupo de apoio. Assim aprendia a se fortalecer, enquanto ajudava outras pessoas a não perderem nenhum ente querido para as drogas, ou para qualquer problema que não entendessem.


- Vó – diz Adelaide, - obrigada por não desistir de nós!!! Eu ainda estou aprendendo a cuidar de mim mesma. Antes eu achava que tinha que consertar o mundo e esquecia de mim!! Hoje sei que preciso ser fiel à minha história. Não vou viver a história de outras pessoas! - Piscou para Grego e completou: "de quem quer que seja!"


D. Eugenio levantou-se e se dirigiu a Gregório: “Meu filho, você está vendo com que família você está se casando?" E lentamente se afastou.


Os três o acompanharam com o olhar e saíram pelo outro lado.


Deixando para trás mais um pedaço da história, foram almoçar com os amigos, como tinham combinado.


O sol brilhava suavemente quente e a natureza agora pareciam sorrir, mais leve e transcendente.





Em todos os cantos a primavera se exibia exuberante:

as árvores e os matinhos se pintavam com os mais variados tons de verde;

as flores espocavam

multicoloridas, em todas os formatos;

as abelhas apareciam do nada, afinando as cordas de seus doces violinos;

os pássaros ensaiavam lindas canções, fazendo inveja a Mozart e a Beethoven;

a brisa da tarde carregava as sementes dos dentes de leão;

e as fragrâncias exalavam a limpeza de um banho refrescante,

realizando o desejo do perfume perfeito!


Ninguém mais se lembrava do inverno.

Quando toda a vegetação parecia estar morta, de luto, sem cor, sem brilho e sem futuro, as sementes e as raízes estavam simplesmente escondidas no calor dos casacos escuros e nos congelados telhados brancos.


A vida estava ali, aguardando para mostrar que é forte... e continua...



Continua na parte 15

3 comentários


adv.arlette
adv.arlette
12 de jun. de 2022

Uma lição de vida: não perturbe o sono das recordações amargas! Dormindo elas não incomodam o presente.

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Branca Martins
Branca Martins
14 de jun. de 2022
Respondendo a

Verdade! Melhor agradecer estarmos acordados, tendo a chance de viver uma nova história.

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arvanimartins
26 de mai. de 2022

Nosssaaa que bonito e comovente ver essas historias de pessoas que superam estes sentimentos ruins e transformam em sentimentos bons par a vida no presente.

Mais uma vez parabens ❤️💚

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