RETORNANDO AO LAR (PARTE 16 "Gregório e seus amigos”)
- Branca Martins

- 11 de mai. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de mai. de 2023
LEMBRANÇAS DA CASA DE REPOUSO
As atividades recomeçam para todos. Gregório é recebido pelos cachorros que pulam e dançam a seu redor, com muita excitação e alegria. Foram só algumas semanas, mas, para eles, pareceram anos. Sentou-se no degrau da varanda para acariciá-los, até que se acalmassem. Xantipa deitou-se ao seu lado e Bartolomeu parou à frente dele, olhando-o diretamente nos olhos, como se quisesse hipnotizá-lo, pedindo colo. Seus olhos brilhantes o fizeram lembrar das vaquinhas da fazenda.

- Que loucura – pensou – qual será a diferença? Seriam vacas diferentes de cães? Não são todos sensíveis? Então, se em algumas culturas matam cães para comer, não estaríamos fazendo o mesmo? Tradições e costumes são inquestionáveis?

Colocou as malas dentro de casa e foi andar lá fora. Seu pai tinha vindo algumas vezes cuidar do quintal, mas havia chovido muito e a vegetação estava maravilhosamente selvagem, com exuberantes cores, diversos tons de verde e cheirando a mato limpo.
Subiu as escadas segurando os corrimões e as barras que havia colocado por todos os lados, quando sua mãe estava idosa. O gênio dela não era fácil, mas era sua mãe e precisava de ajuda. Quando ficou doente, seu pai, mesmo separado havia muito tempo, queria ajudar, mas foi rejeitado por ela. Ficou tudo muito difícil e Grego pensou em colocá-la em uma casa de repouso.
Se desse certo, ele a visitaria sempre, uma vez que se sentia responsável, por ser o único a ter paciência com ela. Seu pai não mais se encaixava, e sua irmã Bruna morava fora há muitos anos.
AS CASAS DE REPOUSO
Foi visitar algumas.
Alguns lugares eram sofisticados, cheios de professionais e requintes, mas caros demais e sem sintonia com seu estilo de vida. Mesmo assim, notava que a maioria dos residentes lúcidos implorava pela presença de seus familiares, por mais que os funcionários se esforçassem para agradar.
Outros lugares menores, por outro lado, não tinham funcionários suficientes para suprir a necessidade dos residentes.
Residências grandes ou pequenas, sofisticadas ou não, em cada visita, algo acontecia. Muitos o chamavam e pediam para levá-los para suas casas e o seguravam para que não saísse. Alguns o observavam com apatia, ou desânimo.
Nada lhe agradava.
Finalmente encontrou uma casa simpática e decidiu experimentar.
As cuidadoras, na maioria mulheres, diziam amar cuidar de idosos. Embora percebesse que algumas, muito jovens, eram ansiosas e sem paciência, outras eram carinhosas e compensavam para deixar o ambiente agradável.
Gregório fazia questão de ir todos os dias, até que sua mãe se acostumasse lá. Despedir-se dela, no final da tarde, era sempre terrível. Aliás, momento doloroso para os residentes que viam suas visitas saindo, muitas sem se despedir, disfarçando e desviando.
Gregório notava que, para muitos, aquilo não incomodava, pois era a única solução possível. Essas casas, realmente, que atualmente se multiplicavam, eram soluções importantes, especialmente para quem tinha familiares com enfermidades sérias. Inclusive algumas pessoas estavam ali para recuperação de saúde, e/ou pós cirurgia.
Na maioria das vezes essas opções eram melhores que a convivência com familiares cansados e estressados.
Gregório saía de lá confuso e às vezes desolado e depressivo. Sua mãe estava lúcida e queria sair de lá. Andava com dificuldade, mas não reclamava de dor; entretanto se queixava dos outros residentes, que ela chamava de "velhos". Dizia que gritavam, xingavam e que eram todos doentes e não sabiam conversar. Embora tivesse um temperamento forte e difícil, depois do AVC, ela estava mais sensível e entendia que era um estorvo na vida dele.
Ele lhe dizia que seria temporário, até que ela estivesse melhor de saúde, mas ela sentia que não era verdade.
Foram dias terríveis para ele. Além de ter que lidar com seus relacionamentos amorosos instáveis, tinha depressão e insônia, pensando na situação, procurando se justificar e tentando se colocar no lugar daqueles profissionais que cuidavam de enfermos e idosos. "Será que realmente gostam do que fazem? Será que realmente são o que parecem?" – pensava.
Teve que colocar na balança tudo isso e decidir qual dor era pior. Reformar sua casa para levar sua mãe de volta, sacrificar várias de suas atividades pessoais, ou conviver com a sensação de a estar abandonando. Era insuportável pensar sobre a velhice. Um ser humano que lutou por tantos anos para sobreviver e depois, em vez de receber um prêmio por tudo que trilhou, ser castigado por ter esgotado suas forças. Alguns dizem que colhemos o que plantamos. Será que temos consciência do que plantamos? Será que pagamos caro pela ignorância de não sabermos o que fazemos?
Essa reflexão foi a gota d'água. Concluiu que sua mãe, embora tivesse sido uma pessoa difícil, era inocente. Não tinha tido intenção de ter sido cruel.
Ligou para a irmã e pediu ajuda: “Não vamos deixar a mamãe lá! Você tem que vir e assumir isto comigo."
Juntos planejaram as adaptações da casa. Chamaram profissionais, fizeram rampas, alargaram portas, contrataram cuidadoras e Grego assumiu a supervisão. Foi a solução mais sensível, respeitosa e amorosa que conseguiram. Afinal, a casa era dela e era ele que morava lá, não o contrário.
Trazê-la de volta foi um alívio para sua consciência. Felizmente o gênio dela estava melhor, e conseguiam até se divertir com algumas histórias, canções e brincadeiras.
Sua mãe viveu somente mais alguns meses.
Lembrando desses episódios, enquanto andava pelo quintal, sorriu tranquilo, com saudade dos momentos bons que tinha vivido com ela e respirou a satisfação de "missão cumprida". Ainda, depois de tantos anos, havia algumas caixas de papeis dela que deveria mexer. Era meta que estava decidido a cumprir.
A viagem o tinha abduzido, como se não pertencesse mais àquela história, mas, ao colocar os pés no chão, ver as fotos e os quadros nas paredes, pintados por sua mãe, ouvir o canto dos pássaros, o tique taque do velho relógio cuco da família, sentiu o cheiro de lar e deixou-se possuir pelo calor das raízes.
"Deixe o fuso horário me acertar!"- pensou. Chamou os cachorros, abriu as janelas, puxou as cortinas e foi deitar.
Mais tarde o alinhamento do universo o ajudaria colocar as coisas nos trilhos.
Continua...



Que surpresa! Com uma linguagem concisa e um tema bastante atual, o texto é agradável de se ler. Parabéns!
''...um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias'' Michel Houellebecq
Nas limitações de Gregório, fraquezas e grandezas, ideias e crenças, o que o excita ou repugna, o que o comove ou interessa, revela-se a integralidade de um espírito sensível, compassivo e terno. Somente possível de ser transcrito por espírito semelhante. Parabéns, professora! Pela obra e pelo espírito tão cativante.
Muito sensível e verdadeiro esses episódios em nossas vidas. Aprender com eles é hierarquizar a vida e elevar o ser humano a ocupar o seu valor na sociedade.