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FINALMENTE ITÁLIA - VIVA A DIVERSIDADE (Parte 11 "Gregório e seus amigos")

  • Foto do escritor: Branca Martins
    Branca Martins
  • 23 de dez. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2022

Desceram em Verona e foram buscar o carro que tinham reservado. Entraram naquele corredor confuso, com muita gente falando alto, discutindo, buscando se organizar em filas disformes. Encontraram a agência onde tinham feito a reserva e ficaram apreensivos, porque as carteiras de motorista de Grego e Adelaide não foram aceitas, por não terem permissão internacional. Ficaram irritadíssimos, porque, quando fizeram a reserva, pagaram a taxa inicial e a agência não mencionou essa necessidade.


E agora não poderiam pegar o carro nem receber o dinheiro de volta?


Dona Nicoletta (vó Ecco), a princípio, nem quis perguntar o que estava havendo, porque supunha que era uma discussão normal de ajustes, com todos se alterando e gesticulando. Todavia, quando percebeu que estavam nervosos, sem se entender, ela se prontificou a ajudar, uma vez que seu italiano fluente poderia esclarecer a razão do desentendimento. Gregório e Adelaide estavam desconsolados e se questionavam se não estavam sendo discriminados, por serem brasileiros. Diziam que essa exigência não procedia, porque ele tinha estado na Itália há alguns anos e havia dirigido sem problema. Por fim tiveram que aceitar o argumento irredutível dos atendentes da agência que a legislação havia mudado e não entregariam o carro. Entretanto, não por isso, iriam devolver a taxa de reserva já efetuada.


Felizmente vó Ecco havia renovado sua própria licença, alguns meses antes, quando viajou com amigas. Na ocasião, todas haviam decidido obter permissão internacional, como precaução... e, agora, seria a salvação deles, sendo que alguém poderia dirigir.


Grego e Adelaide se entreolharam surpresos que uma idosa estivesse tão ativa e atualizada, mas nada disseram... e só sorriram sem graça, envergonhados por não terem contado com ela. Tiveram que reconhecer que até o fato de terem ficados surpresos, já revelava uma discriminação velada contra idosos.


Ainda teriam que se questionar mais um pouco...!


Idosos não tem capacidade de fazer o que os jovens fazem, ou menos conhecimento atualizado, ou menos agilidade? Será que por isso deveriam ser julgados inferiores?


Eles já tinham conversado sobre o assunto, após a palestra sobre os valores éticos da sociedade moderna, proferida por um filósofo de 90 anos:


“QUAL O VALOR DE UMA VIDA?" .


Entendiam que, embora fosse comum e cultural, julgar o valor das pessoas de acordo com sua utilidade, força ou poder, era preconceituoso e ofensivo. Já tinham visto idosos - amigos e parentes - sucumbindo com depressão, por serem infantilizados e tratados como incapazes. Outros, apesar de sua cultura e experiência, foram ignorados, tidos como inúteis e até mesmo abandonados em casas de repouso.


Não queriam que vó Ecco se sentisse diminuída por eles nem por qualquer pessoa, devido à sua idade; mesmo porque seu dinamismo e equilíbrio sempre foram sua marca evidente e quase ninguém a tratava como idosa, porque nem ela mesma lembrava de sua idade.


Pediram desculpas, aborrecidos, por não terem conversado com ela antes, e tentaram compensar com um abraço. Sem a agilidade e articulação dela, nesse momento, teriam tido um grande prejuízo.


A VIDA É CHEIA DE SURPRESAS, PORQUE ESTÁ EM CONSTANTE MOVIMENTO, MUDANDO, MUDANDO, MUDANDO SEMPRE!


Agradeceram por sua solicitude e saíram de lá felizes e motorizados.

- È così - disse ela, - se a gente não muda a vida, a vida muda a gente! – Sorriu e agarrou o volante.


Os dois passageiros planejaram o percurso via GPS e seguiram para o agroturismo, onde deixaram as malas, pegaram as bicicletas e foram encontrar os amigos em Marmirolo, cidade natal de Nicoletta.


Giovanni os esperava no Café, cujos clientes, na maioria homens, falavam alto e alegremente. Alguns liam jornais, outros tomavam expressos, "orzos", "macchiatos", capuchinos, spritz ou cerveja e comiam "paninos" e brioches. Atrás do balcão, uma garota esbelta e simpática sorria, sem tirar os olhos do serviço. Ao seu lado, o proprietário, um senhor apressado, pouco falante, supervisionava as mesas e controlava o caixa.


Naquele ambiente ruidoso e descontraído, curiosos com a presença dos "brasilianos", muitos ofereciam cafés e competiam para pagar a conta.



Gregório ficou surpreso com tanta alegria e simpatia dos italianos.


Quando esteve na Itália da última vez, com amigos, teve uma péssima impressão deles. Gritavam, discutiam, corriam muito nas estradas, desrespeitavam o trânsito, se ofendiam e não eram simpáticos com eles. Nos restaurantes, respondiam mal, não faziam questão de entendê-los, até olhando de cima, com um certo desdém e arrogância. Ele se questionava se era só impressão dele ou se os italianos discriminavam quem não falava bem a língua. Será que tinham preconceito contra estrangeiros, ou só contra brasileiros? Será que isso ocorria só nas cidades turísticas onde ele estava, ou em todos os lugares? Seriam os italianos realmente grosseiros, ou seria o jeito deles, sem maldade?? Talvez fosse mesmo uma coincidência azarada ter acontecido aquilo tudo, em uma só viagem.


Desta vez, com a recepção de Giovanni, o aconchego caloroso dos amigos do Café, tudo parecia tão diferente. Seria uma outra Itália? Ou seria um outro Gregório?


Enquanto as meninas, Adelaide e Nicoletta, alegremente conversavam e socializavam no Café, ele olhava pela janela o "mercato" cheio de flores, roupas, alimentos e muitas pessoas dinâmicas fazendo compras. Ao fundo, o cenário bucólico dessa pequena cidade cheia de paz e segurança seduzia seus pensamentos, que teimavam em comparar esta viagem com aquela malfadada de anos atrás.





Continua na parte 12 com as lembranças da outra viagem...

1 comentário


Arlete Turqueto
09 de jan. de 2022

Que delícia viajar pelos caminhos dos pensamentos e narrativas! Quem pode afirmar que não estive nessa viagem ?!

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