OS POEMAS (Parte 10 - “Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 12 de set. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
O entardecer feliz fez o dia parecer eterno. Puxaram as cadeiras pra varanda e Gregório começou a ler os poemas em voz alta, para Adelaide ouvir.
SÓ
Sinto-me terrivelmente só.
Só um vácuo existe:
Estou vazia do mundo
Estou vazia de mim
Contraio-me na incerteza…
A vida insípida me queima e
A morte me cinge tetricamente.
Adeus, um calafrio murmura!
Adeus, ecoa um derradeiro suspiro!
Adelaide ouviu e exclamou espantada:
- QUE HORROR!
Gregório continuou a leitura.
GOTAS
Estou escutando gotas tristonhas caindo.
São lágrimas.
São sombras da noite.
Que estranho
(…)
Antes que ele terminasse de ler o segundo dos vários poemas que ele tinha acumulado, Adelaide grita:
- Não, por favor, pare de ler!!!!
Grego insistiu, disse ter concluído que provavelmente tinham sido escritos pela menina que Dona Nicoletta viu! A seu ver, os poemas eram sinceros relatos da dor de uma adolescente beirando a depressão e ao suicídio.
Adelaide pede, com a voz embargada:
- Por favor, Gregório, não quero mais ouvir isso!
Ele para de ler e espera que ela se acalme.
Ela respira e começa a explicar que sua avó mantém guardados vários escritos de Chiara, sua mãe, e ela os andou lendo, às escondidas. E agora se assustou, porque, coincidentemente, são muito semelhantes aos que Grego estava lhe mostrando.
Ela diz que já tinha sofrido muito ao tentar entender sua mãe e, ao ler seus escritos, descobriu que ela havia sido uma adolescente sofredora e depressiva e não só irresponsável e extravagante. Ela não se sentia uma pessoa normal, pois acreditava que sua dor era diferente da de todos e buscava sempre uma forma agressiva de chamar atenção, como se quisesse pôr à prova o amor das pessoas. Com certeza ela feria, física e emocionalmente, mais a si mesma do que aos outros.
Adelaide explica que vó Ecco já tinha sofrido muito, tentando descobrir o porquê da infelicidade da filha e já havia se culpado demais. Vô Anselmo tinha adoecido de angústia e ela própria já havia carregado por muito tempo a dor de se sentir culpada por ter nascido.
- Gregui, é muita coincidência você ter recebido esses poemas, ao mesmo tempo que eu lia os poemas de minha mãe. É como se alguém soubesse que você precisaria me ajudar a enfrentar um sentimento que me está incrustado e que me sufoca.
Decidiu que, quando voltasse pra casa, conversaria com sua avó a respeito. Talvez fosse o momento de jogar fora os poemas de sua mãe, num ritual de compreensão, perdão e amor. Afinal ela tinha sido só uma menina inocente, solitária e infeliz. Não fazia sentido remoer uma memória de revolta e raiva, acusando-a por não ter sido a mãe presente e amorosa que ela gostaria. Queria poder se orgulhar e não ter vergonha de ter sido filha dela.
Grego calou-se pensativo, porque lembrou da própria adolescência, do relacionamento traumático com sua mãe e da figura amiga de seu pai, que lhe inspirava respeito e segurança. Se não fosse por ele, também teria se desequilibrado e talvez recorrido às drogas.
Abraçou Adelaide e lhe mostrou que nem todos os poemas eram assim tão tristes... Embora refletissem um momento dolorido de uma adolescente, alguns eram mais leves e até interessantes, por isso deixaria ali pra ela ler, se mudasse de ideia.
De qualquer forma, somente quando voltasse da Itália, iria se dedicar a decifrar o mistério dos poemas em seu carro.
(Continua na parte 11 – mas, antes, dê uma olhada nos poemas que Grego recolheu)
OS POEMAS
GOTAS
Estou escutando gotas tristonhas caindo.
São lágrimas.
São sombras da noite.
Que estranho ruído!
Que dor!
Anoiteceu!
Há muito tempo não sentia este imenso fastio
do longo entardecer.
O tédio enfraqueceu a alma e petrificou o corpo.
Perdi o rumo.
VÁCUO
Olhou para trás e procurou ver
mais que tormentas.
Olhou para frente e procurou
pensamentos concretos.
A primavera dos anos amorteceu a mente
com o sono da noite.
MANHÃ
Eis uma manhã resplandecente.
Eis que se pensa em viver.
Constroem-se ilusões,
Doces quimeras.
Esqueçamo-nos disso tudo!
Vamos viver!
Viver é pensar?
ou não pensar?
Pensar é sofrer.
E sofrer não é viver!
Vamos pensar em viver?
Mas viver não é pensar!
Viver é viver.
Porque viver tem autonomia!
QUERO O QUE QUERO
Não quero este, esse ou aquele.
Nem mesmo você eu quero.
O que eu quero é algo conjunto abrangendo você, este, esse e aquele.
Quero coadunar meu ser com um todo perfeito.
Quero o molde perfeito do meu, a forma emborcada de mim.
Quero ternura, compreensão, calor.
Não quero um eu, mas a essência dele.
Como não consigo enumerar o que meu ideal exige,
Também não quero você.
O AMOR
O arrepio gélido percorre as costas
E debilita os membros
A inspiração procura detalhes
de olhos, braços,
pernas e risos.
Ricos enlevos
de sonhos despertos.
CREIA
Descreias do mundo, se quiseres,
Mas crê na minha amizade.
Sempre que desejares falar ou chorar,
Procura-me que te acolherei.
Se meus problemas forem maiores que os teus,
Esquece os meus, fala-me dos teus.
Faz os teus enormes para que eu esqueça do inferno em que vivo
E me compadeça de ti.
Ajudar-te-ei sempre,
Mesmo que um dia nem me ouças.
POESIA
O poema foi escrito
Pois havia algo a ser dito.
Mas o que seria repetido
Não passaria de reforço
Para não ser esquecido.
E por mais que se esforce
só ficará gravado
se em sangue for lavrado.
Então jamais palavras vão dizer
O que de fato você só vai saber
Se ficar ao meu lado.

SÓ
Sinto-me terrivelmente só.
Só um vácuo existe:
Estou vazia do mundo
Estou vazia de mim
Contraio-me na incerteza…
A vida insípida me queima e
A morte me cinge tetricamente.
Adeus, um calafrio murmura!
Adeus, ecoa um derradeiro suspiro!




Agora mostrando o seu lado poético, também? Gostei muito! Adorei "CREIA"! A profunda nobreza do acolhimento!
Como sempre muito bem escrito e inteligente.
A garota desses poemas precisa de um acolhimento e atenção.
Espero que Gregorio possa ajuda-la, se for possivel né.
Parabens😘