REJEITADO - Como assim? (Parte 5 - "Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 12 de jun. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
Nicoletta, a Vovó Ecco, estava mexendo no quintal, quando vê Gregório na porta da cozinha. Ela acena para ele chegar mais perto e vir ajudá-la. Tratou-o sem cerimônia, como se ele fosse da casa e não fizesse mais de um mês que não aparecia. Ela acabara de pegar uma abóbora gigante e pede pra ele carregar. Ele estranha o comportamento dela, como se ela achasse normal ele estar lá, dormindo no quarto da Adelaide. Ele tenta se desculpar, mas ela não dá atenção e continua a conversar com naturalidade porque, afinal, se ele estava usufruindo de sua casa, nada mais justo do que colaborar com os afazeres da rotina diária.
-Vamos tomar um café, Grego?
Ambos foram pra cozinha, levar a abóbora e tomar um café.
-Você viu que beleza de abóbora, Grego? È così, ela nasceu sozinha e nos fez uma grande surpresa. Sempre molhamos as hortaliças, mas nunca plantamos uma abóbora. Quando notamos, ela estava se esticando pelo quintal e dando lindas folhas e flores, até nos presentear com esta maravilhosa obra de arte. A natureza não é fantástica?
- Ah, sim! Mas, dona Nicoletta, desculpe mudar de assunto, o que aconteceu com Adelaide?
- Como? – vovó Ecco questiona.
- Ela está diferente. Saiu cedo, só deixou um bilhete. Ontem não me deu atenção, não quis conversar. E fazia mais de um mês que não nos víamos.
- Ah, meu filho, talvez seja exatamente por isso que ela estava diferente. Em um mês muita coisa muda, não acha? Eu a tenho visto mais alegre, mais decidida, fazendo o que gosta, até voltou a tocar violão.
- Ela nem me deu uma chance de explicar, dona Nicoletta.
- È così, meu filho, nós não semeamos esta abóbora, mas certamente deixamos cair uma semente na terra e assim colhemos o que semeamos, mesmo sem ter tido consciência do que fizemos.
Ele arregalou os olhos, espantado:
- Adelaide sempre foi compreensiva. Achei que ela iria entender a minha ausência.
- Com certeza entendeu, meu filho, só que não concordou. Às vezes a gente gosta muito da pessoa, mas não concorda com ela.
Gregório estava tenso, pediu licença e saiu para ligar para Adelaide. Ela diz que está ocupada, é domingo, a Flora está cheia e não pode falar com ele. Ele insiste, diz que irá buscá-la pra almoçar, mas ela responde que vai almoçar com uma amiga.
- Precisamos conversar, Adelaide!
- Ok, Gregório. Então, esta semana eu ligo pra você e a gente conversa.
Ela nunca tinha sido assertiva o suficiente para decidir quando e onde poderiam ir. Em geral ela concordava com tudo e cedia, com medo de magoá-lo.
Ele desliga o telefone atordoado e humilhado, porque ela não aceitou vê-lo. Como assim, ela decidir quando podem conversar? Não esperava esse comportamento dela.
Chocado a princípio, depois enraivecido, por ter sido rejeitado, respira fundo. Por fim, num misto de orgulho e medo, reconhece que não quer perdê-la. Começa a se sentir culpado por ter se ausentado sem explicar, ou talvez por alguma outra coisa que tenha feito... mas esperaria que ela ligasse para perguntar e se explicar. Iria pedir desculpas e prometer ser mais presente e comprometido.
Vovó Ecco voltou pro quintal e o chamou de novo, para ajudá-la. Ele estava meio descompassado e desceu para encontrá-la. Ele nunca havia notado essa característica tão tranquila e firme de Dona Nicoletta, ou talvez nunca tivesse prestado atenção.
Mas hoje era um dia diferente, sendo que Adelaide tinha mudado seus planos e ele estava atrapalhado, sem rumo.
- Dona Ecco, a Adelaide vai almoçar com uma amiga.
- Eu sei, meu filho. Ela me falou. Eu vou sair mais tarde também... mas agora me ajuda a carregar estes galhos.
Atordoado pelo inusitado da situação, Gregório obedece automaticamente, como se seu corpo fosse um robô independente de sua mente.
Nicoletta olha para cima e respira fundo, absorvendo a conexão com a melodia da natureza.
- Greguy, querido, não se esqueça de respirar!

- Você tem razão, vovó...
O dia está lindo! A despeito da comoção humana, a terra pulsa iluminada, abraçando o sol que atravessa as árvores e atrai as folhas que dançam delicadamente ao vento, enquanto os tatuzinhos-bola e outros bichinhos furtivos se empenham em fazer sua função, enriquecendo o solo e alimentando a vida do jardim.
(continua na parte 6)




Achei simples e racional, direto ao ponto.