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O MISÓGINO ("Gregório e seus amigos" - Parte 2)

  • Foto do escritor: Branca Martins
    Branca Martins
  • 12 de dez. de 2020
  • 7 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2022


No dia seguinte, Gregório enviou uma mensagem para Frederico, convidando-o para se encontrar com ele, depois do serviço, no mesmo lugar em que haviam se encontrado ontem. Fred respondeu que iria tentar, entretanto não apareceu. Mais tarde mandou uma mensagem dizendo que tinha havido um imprevisto. No dia seguinte Grego repetiu a mensagem e Fred respondeu que estaria muito ocupado e não iria conseguir. Grego ainda tentou outras vezes, mas sempre recebia uma desculpa diferente: as crianças, a sogra, ou Wilma não estavam bem, ou então o carro dela estava quebrado e precisava que a levasse para algum lugar. Imaginava que certamente o amigo já tinha lhe contado sobre a conversa que tinham tido e agora ela estava colocando empecilho em sua saída.


"MISOGINIA SE EXPLICANDO!"


Humilhado, diante de tantas desculpas, Gregório não conseguia pensar em outra coisa, a não ser no que poderia estar acontecendo.


"SERÁ QUE EU ERREI? O QUE DEVERIA TER FEITO? O QUE EU POSSO FAZER?"

Agora que sabia do conflito do amigo, sentiu-se responsável por ajudá-lo a achar uma solução.


"Será que devo continuar insistindo, mandando mensagens, telefonando? Talvez deva surpreendê-lo na saída do serviço, ou será melhor esperar que ele me procure?


Será que não lhe dei atenção devida? Será que deveria ter falado menos, ou mais, explicado melhor como poderia ajudá-lo?


Será que o pressionei e o forcei a se expor? Talvez ele não estivesse preparado e agora tem vergonha de ter revelado sua fragilidade.


Por que será que ele está fugindo? Será que a mulher o proibiu de falar comigo? Ou será que ele não confia em mim.


Acho que eu não tenho credibilidade!"


Concluiu que Fred não lhe daria ouvidos, porque tinha presenciado várias brigas em seu malfadado casamento. Era visto como fracassado, embora se julgasse autoridade no assunto de relacionamento. Queria muito aconselhá-lo a se proteger e não se deixar se dominar pela mulher.

“FRED, A MISOGINIA QUER FALAR COM VOCÊ!"


Sentiu ódio por ela. Achava que ela era responsável pela infelicidade do amigo; era controladora, narcisista, culpada por sufocá-lo, tratando-o como criança incapaz, para que se tornasse totalmente dependente dela.


PRECISAVA PENSAR MUITO PARA ENTENDER PORQUE ISSO ACONTECIA!


Os pensamentos compulsivos explodiram e o jogaram de volta ao passado. Lembrou-se da mãe que subjugava seu pai com agressividade, sempre o ofendendo e o desmerecendo. Via essas características em várias mulheres que conhecera. Ele achava que Mariela, sua ex, embora dissimulada, também tinha o objetivo de subjugá-lo: sempre tinha a última palavra e constantemente competia com ele, querendo provar que era melhor em todos os aspectos. Nada do que ele fazia estava suficientemente bem feito e nenhuma forma de expressão dava certo. Ele tinha que ser muito cuidadoso com as palavras, porque tudo se voltaria contra ele. Como ela nunca se contentava, aos poucos, ele deixou que ela fizesse tudo, porque supunha que pararia de corrigi-lo e criticá-lo. Quanto mais ela crescia assumindo tudo, mais ele diminuía e ficava submisso. Às vezes gritava tão alto que os vizinhos ouviam e ele, simplesmente, abaixava a cabeça com medo do que ela pudesse fazer. Tornou-se um objeto nas mãos dela e não conseguia reagir. Reclamava e se lastimava constantemente. Tinha sempre uma expressão triste e sofrida. Quanto mais abatido e depressivo ficava, mais ela ficava enraivecida pela frouxidão dele.


O relacionamento estava se destruindo e ele também. Os amigos cansavam de ouvir suas reclamações e o aconselhavam a reagir. Ele dizia que a única solução seria deixá-la, mas se desculpava dizendo que ela precisava dele. Tentaria mais um pouco... Iria conversar com ela e mostrar o que ela estava fazendo. Apontaria seus erros e a convenceria que ela teria que mudar, senão ela o perderia. Ela chorava, depois xingava e revertia todas as acusações contra ele.


"E A MISOGINIA ESCALAVA!"


Até que, um dia, ela o surpreende, aos gritos: “Cansei de sua cara triste! Cansei de sua expressão de fracassado! Só reclama de tudo e nunca sai da mesmice! Tudo que se propõe a fazer não consegue. Não volta a estudar, não muda de emprego e não melhora em nada! Não quero mais fazer papel de mãe. Vou cuidar de minha vida". E assim ela terminou o relacionamento que ele a acusava de estragar.


Arrasado pela rejeição, sentiu-se enlouquecer. Procurou tratamento psiquiátrico e se encheu de remédios para depressão, insônia, ansiedade...


Antes dela, tinha tido tantas outras namoradas que considerava que se sentiam donas da verdade! Lembrava delas com amargura por não ter conseguido entendê-las. Fazia de tudo para agradá-las, mas nunca ficavam satisfeitas. Pior é que ele era profundamente atraído por esse tipo de mulher independente, autoritária, forte e inteligente. Tinha um desejo imenso de conquistá-las e submetê-las. Criava fantasias de violentá-las, para possuí-las, corpo e mente.


"NÃO NASCI MISÓGINO!"


Sua irmã um dia disse que ele tinha o “dedo podre" e só se envolvia com mulheres problemáticas. Um dia ela ousou chamá-lo para uma conversa séria e lhe disse: “Você tem que sair desse ciclo, Gregui, não pode ficar tentando reviver a raiva da mamãe em todas as mulheres! Você as escolhe com seu "dedo podre", depois vive um inferno com elas. Você não precisa ser igual ao papai! Se ele foi capacho da mamãe, nós não tivemos culpa nem podemos consertar isso! Temos que viver as nossas vidas!"


Aquelas palavras ficaram cravadas e revirando em sua cabeça. Talvez fosse isso mesmo, mas era insuportável pensar em perdoar sua mãe. Teve raiva da irmã por tê-lo comparado com seu pai. Já era demais carregar a lembrança da mãe neurótica, agora teria que se sentir culpado por atrair mulheres iguais a ela? Será que também deveria se sentir culpado pela loucura das mulheres?


Verdade é que as mulheres tranquilas não o atraíam. Elas não tinham graça alguma. Amizade, sim, mas conviver com elas seria muito monótono. Sua amiga Adelaide era assim: um sossego! Sempre concordava em tudo com ele. Nunca se casara e o idolatrava. Há muitos anos, mantinha um caso secreto com ela, mas tinha vergonha de assumi-la, porque não era atraente ou inteligente, não tinha estudos ou posição social. Não precisaria lutar por ela, pois já estava no comando. Não representava uma conquista nem seria um troféu. Não a considerava uma companheira que o preenchesse. Faltava brilho e glamour. A vida com ela seria muito simples, sem entusiasmo, sem novidade, sem desafios.


Tinha certeza que não poderia conversar com ninguém a respeito disso porque, afinal, ele não a valorizava e só a usava. Nem mesmo seu terapeuta iria lhe dar razão.


"PRECISO PENSAR, PRECISO PENSAR, PRECISO PENSAR!


Gregório estava desvairando, pensando compulsivamente e se descontrolando. Estaria enlouquecendo? Por que não conseguia pensar em outra coisa, a não ser em relacionamentos desastrados?


Esse quadro já havia acontecido no passado. Com a terapia e o grupo de apoio, ele já estava bem melhor, mas o acontecimento com Fred e a esposa fez com que voltasse a se descontrolar, a odiar os outros e a si mesmo!!


Estava recaindo no uso de sua droga preferida: o ódio.


"MISOGINIA INSTALADA!"


Pensava em terminar seu curso de psicologia, para ajudar as pessoas a enxergarem a estrutura maligna da vida e fazê-las despertar da fantasia do casamento ideal, da armadilha instintiva do relacionamento sexo afetivo, da malícia feminina que escolhia o macho para submetê-lo.


Estava confuso demais, tentava se controlar, mas a depressão estava retornando e lhe dizendo que nada fazia sentido. Pensava: "O ser humano é estúpido e infantil: sempre inventa um brinquedo pra poder se enganar. A felicidade é ilusão; a realidade é morte desde que nascemos!"


Os pensamentos recorrentes de suicídio voltaram e ele se percebia abater e sucumbir.


CALMA GREGÓRIO!


Sentiu-se um idiota por querer ajudar o amigo Frederico. Lembrou-se das palavras da irmã. Ela tinha razão! Lá estava ele de novo querendo salvar os homens da opressão feminina. Lá estava ele querendo castigar as mulheres e fazer com que todos os homens se vingassem delas e as abandonassem. Elas teriam que sofrer pelo tanto que fazem os homens sofrer. Odiou-se ainda mais quando percebeu que sua intenção, ao querer ajudar Fred, era que ele se livrasse da mulher. Possivelmente o amigo fosse infeliz e talvez tivesse que aprender a se respeitar e a viver melhor, mas o que, no fundo, ele queria era que Wilma sofresse.


"MISÓGINO, EU, GREGÓRIO, O TODO-PODEROSO?"


E agora? Humilhado por ter conhecido o que estava por trás de sua loucura, ficou feliz por Fred ter fugido dele, que certamente lhe causaria danos piores do que ele já estava sofrendo com a esposa. Ele não poderia ajudá-lo, porque ele mesmo ainda não tinha conseguido se livrar dos danos interiores que agora carregava para seus relacionamentos. Ele tinha ódio de si mesmo por não ter conseguido ajudar o pai. Tinha ódio da mãe e ódio de todas as mulheres. Tinha ódio de si mesmo por não conhecer um relacionamento equilibrado. Tinha milhares de explicações para querer reviver o que seu pai tinha vivido, mas teria que se acalmar.


"CONHECE-TE A TI MESMO!" (Sócrates já sabia?)


Essa sensação de revelar-se doeu muito, mas foi libertadora. Continuaria com seu terapeuta e com o grupo de apoio porque ele próprio precisava de ajuda. Estava consciente que sozinho iria afunilar no precipício da neurose. Teria que mudar o foco! O ciclo da loucura de relacionamentos desajustados jamais terminaria, enquanto ele não curasse seu "dedo pobre". Qualquer pessoa que fosse tocada por ele faria parte de sua doença. Se fosse vibrante, ele a sufocaria, se fosse tranquila, seria insuficiente. Se ela não fosse doida, ele faria com que ela ficasse, para poder se sentir vítima, justificar sua dor e depois acusá-la de algoz e, mais tarde, tentar, de alguma forma, se vingar dela.


Ninguém iria satisfazê-lo, enquanto não estivesse bem consigo mesmo.


Pobre Adelaide! Embora Grego pensasse nela com desprezo, também sentia carinho e gratidão porque ela estaria lá a esperá-lo e a aceitá-lo como ele é. Ele se sentiu aliviado porque, segundo seu julgamento, ela era pessoa de capacidade mental limitada e não entenderia a loucura dele e, portanto, não se contaminaria. Porém, diante dos últimos acontecimentos, ele duvidava de seu próprio julgamento e se perguntava quem seria o ser limitado. Seria ela mesmo???


Desiludido com todos e consigo mesmo, a procuraria, a trataria com frieza, mas ela não se importaria e o acolheria com carinho. Os dois se abraçariam, ele daria um tempo para seu pensamento compulsivo e dormiria tranquilo nos braços do esquecimento.


Por hoje teria sido suficiente o balde de autoconhecimento e autopunição.


"MISOGINIA TEM CAUSA? TEM SOLUÇÃO?


Amanhã pensaria a respeito e, pro resto da vida, continuaria seu tratamento!


"Adeus Fred, adeus Wilma" - pensou - "Gratidão por me forçar o processo de revelar o ser que está escondido atrás da minha história! Vou enfocar em encontrar a saída! Vou cuidar de mim!".


(CONTINUA NA PARTE 3)


NOTA DO NARRADOR ONISCIENTE: toda semelhança é semelhança mesmo!

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