MAMÃE É UM FENÔMENO!
- Branca Martins

- 9 de mai. de 2021
- 2 min de leitura
"Filha, não ligue pra sujeira! Vão-se os anéis, mas fiquem os dedos!!!"
Por volta dos 90 anos, seus valores haviam mudado. Como a visão não era tão boa, desconfio
que não enxergava o que não valorizava.
Se alguém a criticava por alguma falha, ela dizia: "Você nunca teve a minha idade, pra me entender!"
Se argumentássemos que preferiríamos não ter (aquela idade), teríamos que ouvir: “Não quer envelhecer? – morra!"
Houve um tempo que me assustavam as ideias da mamãe, que viveu 97 anos e 361 dias.
Hoje muitas delas fazem sentido pra mim e o que não entendo fica na prateleira, aguardando um dia, quem sabe.... pois, na medida em que me conheço, é que consigo entendê-la.
A convivência com seu gênio forte foi sempre cheia de surpresas e inquietudes, mas foi esse ambiente que me estimulou a buscar verdades e a lutar pela minha identidade.
Fui forçada a questionar se um lar ideal seria um castelo encantado com fadas, reis e rainhas felizes. Mães e pais deveriam ser personagens perfeitos só porque têm filhos?
Investi na coragem de enfrentar a realidade e reconheci que família verdadeira é real, sem realeza! Todos, de alguma forma, se amam e se ralam.
Mamãe nunca sucumbiu à expectativa da idealizada mãe padrão, dedicada, servil e apaziguadora. Não conheci outra pessoa tão dona de si mesmo! Um ser humano real, único, com peculiaridades complicadas (para mim) e virtudes invejáveis.
Como dizia papai: “mamãe é um fenômeno!"
Eu mudaria a história?
Não... absolutamente não, porque a história me ensinou a desconstruir o teatro de fachada e liberar a obra de arte que existe em cada ser.
Polir e amar, eis a função!
O link acima é uma gravação de um texto que escrevi em 1996, 13 anos antes de sua partida.
A foto do perfil foi tirada em janeiro de 2010, algumas semanas antes do AIT que a fragilizou, mas não tirou totalmente sua lucidez. Faleceu em setembro do mesmo ano e deixou muitas recordações e saudades!




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