ITÁLIA SEMPRE SURPREENDENDO! (Parte 13 - "Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 3 de abr. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
(Fui roubado! Chamo "i carabinieri"? Perdoo e esqueço?)
Noite linda e quente de primavera. No Agroturismo, quartos amplos, janela altas, vista para o lago, tudo muito limpo e agradável. Tomaram banho, ajeitaram as camas e relaxaram. Tudo perfeito? Então resolveram ver as mensagens e mandar notícias para os amigos e parentes. E a internet?
Estava bom demais para ser verdade!
Ligaram para Elisa, a proprietária, que confirmou que não havia boa conexão nos quartos, mas poderiam descer até a varanda, onde com certeza conseguiriam sinal.
Desceram e tentaram por 30 minutos, suficientemente irritantes. Grego e Adelaide tentaram ligar, desligar, mudar o sistema, tudo o que podiam, porque, sem conexão, parecia não haver vida.
Vó Ecco sorriu e sugeriu que conversassem, como se fazia antes da internet. Os dois resistiram um pouco, mas cederam, porque, afinal, não havia o que fazer, a não ser esperar.

Dhara, a pastora alemã, mascote de Elisa, chegou de mansinho, deitou perto deles e pediu carinho. Grego achou uma escova e começou a escová-la carinhosamente. Adelaide comentou: “Incrível como os animais nos ensinam a ficar presentes!"
A escuridão desvendava milhares de estrelas. O cheiro do campo e a tranquila energia de Dhara fez Gregório lembrar de Pituka, a pastora que morava na chácara vizinha à sua, quando criança. As três irmãs, proprietárias da chácara, só vinham aos finais de semana e sabiam que Greguy a chamava de sua; para ele, ela era mais que um cão: era sua confidente, sua amiga e anjo da guarda. A morte dela foi sua primeira lição de aceitação forçada de dor e de separação.

Relembrando apegos e despedidas, ele pensou em voz alta: “Como posso aproveitar o momento presente, quando meu subconsciente me traz memórias ruins? Aqui abraçando Dhara e lembrando da dor da perda da Pituka. Estou aqui vivendo um momento tranquilo de paz e fico lembrando do roubo de anos atrás!"
- Meu filho – diz D. Nicoletta, -Você se sente culpado pela morte da Pituka? Alguma coisa que você poderia ter feito para evitar?"
- Não, vó Ecco, ela não era responsabilidade minha e as irmãs fizeram tudo que foi possível. Levaram aos melhores veterinários e tentaram vários tratamentos. Lembro dela com amor e gratidão. A perda dela doeu, mas me sinto bem.
- Grego, meu filho, você se sente culpado por ter sido roubado?
- Sim, acho que sim. Poderíamos ter evitado.
Ela concluiu: "Talvez seja isso que o incomoda. Fale-nos sobre o que aconteceu!"
Gregório contou rapidamente sobre:
Perto de Roma;
Caminho do aeroporto, voltando para o Brasil;
Pararam para almoçar;
Deixaram quase tudo no carro.
Quando voltaram, sentiram um vazio ensurdecedor, como uma pancada na cabeça: tinham sido roubados! Levaram todas as peças pequenas: mochilas, laptop, documentos e dinheiro.
Por longos minutos/hora se perguntaram se tinham travado o carro, ligado o alarme, etc. Realmente não havia sinal de arrombamento. Certamente alguém interceptara o alarme.
Lembraram que havia alguém na esquina, quando estacionaram, mas não deram atenção.
"Afinal, estávamos na Europa!" – pensaram. "Se estivéssemos no Brasil, estaríamos desconfiados, mas aqui??"
Atônitos, sem saber como proceder, voltaram para o restaurante, tentaram solidariedade com as pessoas que lá estavam, para que os ajudassem a chamar a polícia, mas simplesmente os ignoraram, porque o futebol na TV era muito importante. Solicitaram ajuda ao dono do estabelecimento, mas, só depois de muita insistência, conseguiram que ele, mesmo contrariado e irritado, explicasse para a polícia o que tinha ocorrido. Do outro lado da linha o “carabiniere” não entendia, ou não se esforçava para entender. Finalmente compareceram e os levaram para a delegacia de polícia para fazer o boletim de ocorrência.
Enraivecidos e humilhados, fizeram B.O. - necessário para solicitar novos passaportes e acionar a seguradora. Os “carabinieri” foram até simpáticos, mas tomaram a ocorrência como corriqueira, como se aquilo fosse normal: "Os ladrões aqui são como ratos, rápidos e sorrateiros, difíceis de pegar!" – mas, mesmo assim, prometeram investigar com afinco e entrar em contato (no Brasil? Será?), caso tivessem alguma notícia.
Saíram da delegacia com a sensação de impotência, desconfiados que jamais seriam contatados... como realmente aconteceu.
Porque Wilma, a esposa de Fred, sempre carregava os documentos e dinheiro em sua "pochette", o casal teve só algumas peças roubadas e puderam continuar viagem de volta para o Brasil. Grego e Vidal, que tiveram passaportes e dinheiro roubados, tiveram que reconhecer que eram injustos ao caçoar dela por não desgrudar da "pochette", por ser ansiosa, falante, desconfiada e medrosa. E foi exatamente por causa dessas características que ela pôde emprestar dinheiro para eles poderem permanecer na Itália, até o primeiro dia útil e ir ao Consulado.
Ah Wilma, redimida!
Afinal ela foi a pessoa mais eficiente do grupo, sempre prestativa, preocupada com os detalhes. Fazia as ligações e reservas em concertos, teatros e restaurantes; conversava com as pessoas, resolvia problemas, acertava os "B&Bs" e fazia os roteiros dos passeios.
Reclamavam e riam do jeito dela, mas se aproveitavam de sua habilidade e destemor.
Enfim, todos tiveram que enfrentar as consequências, cabisbaixos e humilhados, pensando no que tinham perdido e se perguntando onde tinham errado. Fred e Wilma terminaram a viagem, atordoados. Grego e Vidal, sem amigos que os ajudassem, sem falar bem a língua, sem documentos, tiveram dificuldade em explicar no hotel o que tinha ocorrido e convencê-los a registrá-los, só com o B.O.
Vidal ligou para seu amigo italiano, Roberto, que simplesmente sorriu e disse: “ Sucede em todos os lugares!" Grego ligou para a irmã, Bruna, em Amsterdam, procurando solidariedade e recebeu: "Comparar Brasil com Itália é como trocar seis por meia dúzia!" Gregório discordou, muito bravo. Se isso acontece em todos os lugares, teria então que admitir seu descuido em não se proteger de aproveitadores?
Jurou para si mesmo não mais desmerecer seu país, como sempre fazia.
Ao chegar de volta, pensou em esconder o ocorrido, mas, aos poucos, foi criando coragem e comentando aqui e ali. Para sua surpresa, ouviu, de muitas pessoas, experiências de roubo, assalto e decepção, durante suas viagens. No final, acabava rindo, para disfarçar o misto de vergonha e ódio.
- Espero que esses ladrões paguem caro... – concluiu Gregório. Tenho muita raiva deles, mas acho que estou com mais raiva de mim mesmo, por ter sido tão ingênuo.
AFINAL ONDE HOUVE ERRO?
- Gregui, não houve erro, foi só uma constatação da realidade! – diz Adelaide. Recebemos uma educação contraditória. De um lado devemos ‘amar incondicionalmente', 'ter fé na humanidade’, 'dar o outro lado da face’, 'perdoar'. Do outro lado, os filmes, seriados e notícias mostram que temos de ser espertos, estarmos sempre armados e agressivos... senão nos chamam de bobos. Enaltecem, como modelo de felicidade, a criança pura e inocente. Por outro lado, temos que ser adultos valentes e destemidos. Estou tentando entender o que é um ser humano equilibrado: ser adulto, sem perder a inocência, e ser criança, sem ser infantil?
- Vó, fala aí!!!!! – os dois provocaram D. Nicoletta, que estava quietinha só ouvindo.
- Adelaide, amore mio, o pedágio de crescer pode muitas vezes custar caro. E quanto mais a gente roda, mais pedágios vai encontrar, até que aprenda a aproveitar a viagem e esquecer o que pagou. É o que estou fazendo ainda.
- Gregório, meu filho, você se sente culpado, por um crime que não cometeu?
...
- Você sabia que aquilo iria acontecer?
...
- Você teve intenção que isso acontecesse?
..
- Foi você que se aproveitou da ingenuidade de alguém e lhe tirou proveito?
...
E acrescentou:
- È così, meu filho, quem agiu levianamente certamente não está se sentindo culpado. Por que você deveria estar?
- Está certa, Vó Ecco.
Abraçou Dhara, tão tranquila a seus pés, e se convenceu que deveria aprender com ela a simplesmente aproveitar o momento! Aconteça o que acontecer!
-

Está certa Dhara! Você nos inspira a melhor filosofia!
Vó Ecco se despediu e se recolheu.
Adelaide puxou Grego pela mão e se dirigiu à Dhara:
"Querida, vai dormir em tua casinha, porque agora o namorado é meu."
E ninguém mais se lembrou da internet, que não fez falta alguma.
Continua na parte 14






Cada episódio uma mensagem muito interessante. Desta vez a paz que os animais transmitem e a virtude de nos perdoarmos e eliminar este sentimento de culpa que tanto nos trava.