ITÁLIA, ESPERE POR MIM! (Parte 9 - "Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 23 de ago. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
Gregório guarda o carro na garagem e nota um folheto no vidro de trás. É mais um poema. É domingo, muito tarde. Resolve guardar para ler em outro momento.
Na manhã seguinte - "Yupiii" que alegria! - recebe uma mensagem:
"Gregui, conversei com a vovó e achamos uma boa ideia você ir conosco pra Itália!"

Na hora do almoço, ele liga para conversar e acertar a data para tirar férias.
Tudo certo!
- Adelaide, vamos tentar colocar Austrália no roteiro? Podemos visitar "Adelaide".
Sugeriu que ficassem uma semana na Itália com Dona Nicoletta e que, depois, ela ficasse em Mântua com os amigos e eles desceriam até a Oceania. Depois todos voltariam direto para o Brasil.
- Não sei, talvez! – não deu certeza, porque não poderia decidir, sem conversar com a avó. Além disso, responder sem pensar seria um risco de se comprometer e depois ter que voltar atrás.
- Vamos conversar hoje à noite? Vou à sua casa.
- Não, Gregui, impossível. Eu tenho reunião de grupo. Você não?
- Sim, tenho, mas podemos faltar hoje!
De jeito algum. Ela não aceitou. Se eles estavam decididos a caminhar para dentro de si mesmos, como tinham planejado, não poderiam negligenciar as ferramentas para conseguirem isso. Corriam o risco de recaírem e continuarem um relacionamento disfuncional. Ela se questionava se (mesmo inconscientemente) ele não estaria boicotando a mudança dela. Já tinha visto, em seu grupo, codependentes boicotando o processo de cura do outro e vice-versa. Nesses tipos de relacionamento, como tinha sido o deles, a simbiose da situação mantinha os dois ocupados, ou anestesiados, com a sensação de serem úteis ou perseguidores, ou, talvez, vítimas (como no triângulo de dramas). Era preciso estar alerta. Cada um teria sua parte de sanidade a zelar. Não adiantaria acusar o outro de ser culpado por não dar certo!
E concluiu: "O problema pode estar nele, mas a solução - para mim - está em minhas mãos!"
Ele sugeriu terça-feira, mas ela teria que levar a avó para comprar um novo celular. Já tinha se comprometido e manteria seus planos e compromissos. Quarta, quinta também já estavam tomados por palestras, reuniões e aulas. E então, só no domingo? A intenção não era punir o outro, porque, afinal, ambos já tinham se comprometido a manter uma relação de respeito pela própria individualidade e pela do outro.
Antes de desligar o telefone, Adelaide lembra:
- Vovó diz que viu uma pessoa, colocando um bilhete no vidro do seu carro, mas não identificou se foi um garoto, ou uma garota.
Grego ficaria atento e tentaria descobrir quem era, quando fosse à casa de Adelaide, porque, no momento, estava muito entusiasmado com a Itália.

Pelo telefone, foram resolvendo os detalhes da viagem. Definiram que não seria dessa vez
que iriam para Austrália.
Dona Nicoletta iria conversar com o amigo Giovanni sobre hospedagem em um Agroturismo perto de Mântua. Sendo vegetariana, preferia ficar em apartamento com cozinha para poder preparar algumas refeições.


Adelaide se encarregaria dos documentos.
Gregório compraria os bilhetes e acertaria o aluguel do carro, portanto não precisariam de agência de viagem. Chegariam em Verona, deixariam as malas no Agroturismo e iriam para Marmirolo encontrar Giovanni, Roberto e outros amigos no café da praça principal.


Outros detalhes resolveriam depois, com tranquilidade.
Ahh, “la bella Italia”!
Ansioso para conversar, Grego telefona na sexta-feira logo cedo:
- Adelaide, já que planejamos uma boa parte da viagem, vamos descansar um pouco? Que tal passarmos o domingo na praia? Posso ver com tio Paulo e tia Annie, se podemos ficar no apto deles.
- Gregui, vou ver. Se vó Ecco puder ficar na Flora, será uma boa ideia.
Dona Nicoletta entendeu que eles precisavam ficar a sós, mas não poderia responder sem pensar. Teria que ter certeza que Seu Joaquim estaria livre para ajudá-la, pois não tinha a mesma energia de outrora, para dar conta de tudo sozinha.
Parou para meditar um pouco, com carinho e admiração pela consideração que Adelaide tinha por ela. Olhou para Chiara, na foto da parede e sorriu para ela. “Filha querida, queria tanto que nossa história tivesse sido diferente, mas como teria sido?" Em sua mente rodou de volta o filme do passado, lembrando como a filha tinha sido inconsequente. Fazia tudo sem pensar, ou planejar. Não consultava as possibilidades, não solicitava autorização nem ao menos opinião. Se estivesse viva, seria uma jovem senhora. Como teria educado a filha? Será que teria mudado seu comportamento? Ou talvez tivesse piorado e enfrentando outros transtornos...
"A vida tem suas razões – pensou Nicoletta. Se Chiara não tivesse partido, como eu estaria? Será que eu estaria viva? Por que eu sobrevivi e não ela? Do jeito que eu estava fragilizada, tal qual Anselmo, eu também poderia ter sucumbido, ao peso do ódio que ela carregava por si mesma e despejava em todos que a rodeavam! Será que eu teria procurado ajuda e tomado uma atitude, impedindo o que aconteceu?"
Só agora ela entendia que todos os três estavam doentes, mas não tinha como voltar no tempo. Não quis se torturar com a acusação da fantasia de tantas possibilidades... e respirou um sentimento de gratidão por estar viva e continuar descobrindo os mistérios da vida. Esquecer, saberia que nunca conseguiria, mas aceitou ser o resultado da experiência da dor, comparando-se à energia que surgia da compostagem.
A VIDA VALIA A PENA, MESMO COM DOR, APESAR DELA E TALVEZ POR CAUSA DELA.
Agora era momento de compartilhar alegria!
Rapidamente, assim que confirmou com Seu Joaquim, avisou a neta que estava tudo resolvido. Não só aceitou cuidar da Flora, como sugeriu que não perdessem tempo e aproveitassem todo o fim de semana.
Tudo se ajeitou em alguns minutos. Jogaram umas peças nas mochilas e partiram para praia.

Yuppi! Finalmente desfrutariam do afeto acumulado, desde o momento que fizeram as pazes e relaxariam a ansiedade da paixão.
Itália e o mistério dos poemas esperariam mais um pouco!
(Continua na parte 10)




Che bella,
Relacionamento bem sincero e honesto. Acho que todos buscam esse tipo de parceria,
Mesmo que não consiga ser igual a Adelaide e Gregório, mas vale a pena a busca.
Bravo, bravo cara mia❤️