ITÁLIA BELLA, ONDE ESTÁ SEU GLAMOUR? (Parte 12 - "Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 21 de fev. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
Em busca da magia, arte, cultura, literatura, música, aroma, paladar, história... e de tanto charme que abraça a deliciosa língua italiana!
Tudo agora respirava inacreditável paz.
Enquanto Nicoletta, Adelaide e Giovanni entram na pequena igreja, para cumprimentar o pároco, Gregório caminha pela praça, acompanhando tantos cabelos brancos rodando suas bicicletas e crianças brincando com seus pets, amigos e familiares.
ANJOS DE RAFAEL DANÇAM, INEBRIADOS, NO TORPOR DA PRIMAVERA DE VIVALDI!
Sentou-se e abriu um parêntese em seu pensamento para comparar aquele momento especial com a viagem de anos antes. Mal acreditava que estava no mesmo país.

LEMBRANÇAS DA OUTRA VIAGEM
A despeito de se ter extasiado com a exuberância de Roma, um saldo negativo assombrava sua memória.
MICHELÂNGELO

ESTREMECIA OS ANDAIMES DA SISTINA
COM PINCÉIS COLADOS NOS OLHOS
DO DEDO DIVINO
Nada esteve bem com Gregório, desde o planejamento da viagem. Acabara de sair de um relacionamento complicado e os velhos amigos, Vidal e Fred, resolveram combinar uma viagem, como comemoração da "liberdade". Iriam só os três, sem as esposas. Quando estava tudo certo, Fred disse que Wilma iria também. A princípio, ficaram estremecidos, pensando em desistir, mas por fim cederam.
- GREGO, VAMOS ESQUECER ESSA TRISTEZA? – Insistiu o amigo Vidal.
- Estou tentando esquecer esta dor de dente! – Justificou Gregório, pois sabia que não poderia confessar a dor emocional. Pressentia que iriam julgar, dar conselhos, desmerecer sua dor. Tinha vergonha de revelar que não conseguia ser superior à uma rejeição. Carregava um misto de amor e ódio por uma mulher. Ainda mais agora, com a presença da esposa de Fred, sentia que jamais poderia mostrar fragilidade. Mais fácil e melhor compreendido seria se reclamasse de sua dor de dente.
E não mentia totalmente, porque realmente existia uma situação mal resolvida com um dente. Tinha tratado um canal e a dor continuava. Havia voltado muitas vezes ao dentista e ao endodontista e não conseguiram descobrir a causa. Concluíram que Grego estava nervoso por causa da viagem e por isso pressionava os dentes. Ele não concordava e insistia que eram arrogantes em afirmar que entendiam de seu corpo mais do que ele mesmo. No final teve que se calar para não ser ainda mais debochado e humilhado.
A dor persistia. Aflito, antes de partir, tentou consultar outros profissionais, que confirmaram o diagnóstico: “Está tudo bem. O senhor está muito tenso, porque vai viajar!"
Abatido e preocupado, porque a viagem estava chegando, temia que a dor piorasse.
A dor não piorou, mas persistiu. A sequela do conflito emocional que ele sufocava, juntou-se à preocupação e à humilhação, somatizando com a depressão e sobrecarregando o físico. Chegou a Roma, abatido, tentando disfarçar e esquecer.
O aeroporto confuso e desorganizado contribuiu para seu desconforto. Todos se empurravam em busca de suas conduções. Como não encontraram a van que tinham contatado para levá-los até a cidade, foram espremidos para dentro de um ônibus, que os levou perto do apartamento que tinham reservado.

Roma, abarrotada de turistas e imigrantes parecia fervilhar. Ventava, fazia sol, esquentava, chovia e esfriava, tudo ao mesmo tempo. Gregório sentia-se flutuar e percebeu que algo estava errado com sua saúde. Com a imunidade baixa, talvez por toda sensação de impotência, contraiu uma virose.
SUAS NOITES RESSOAVAM CARAVAGGIO!
Toscana emanava o aroma de vinhedos e olivais. Pela janela do carro, ele observava os vales e prados verdes ao pé da colina, que convidavam para um piquenique, com direito a toalha xadrez e tudo o mais.

Mas como conseguir desfrutar de tudo isso, se entre a beleza e seus olhos havia a dor que, como uma vidraça suja, desfocava o prazer?

Ele se esforçava para fazer os passeios, teimava que estava bem, até que a doença tomou conta dele e o obrigou a passar dias deitado num quarto de hotel.
Aqueles momentos pareciam eternos. Nada tinha cor, gosto ou aroma.
Os amigos tentavam ter paciência, mas, em algum momento, cansaram. Wilma sussurrou pra Fred: "Grego está gostando de se sentir vítima! Por que não toma logo um remédio?"
Fred se irritou com ela e resolveu insistir com ele:
- Toma um copo de vinho, relaxa! Vamos sair que você esquece!
Com o intuito de fazer com que reagisse, lembravam que o problema dele era muito pequeno, comparado com alguns de seus conhecidos:
- Euzínio está tetraplégico, em uma clínica de repouso; - A irmã de Carminha, com câncer avançado, toma duas doses de morfina ao dia, devido à dor incessante; - Tia Shirley perdeu um filho num acidente de automóvel; - Tessa carregava uma tristeza profunda, até despencar da cobertura do prédio.
Essas lembranças de pessoas que sucumbiram diante da dor o deixaram ainda pior.
E AQUELES QUE, APESAR DA DOR, SEGUEM EM FRENTE?
Telefonou para Bruna, sua irmã, para compartilhar sua situação, mas ela logo lhe contou que tinha uma dor na coluna insuportável e mesmo assim tocava com a banda e se preparava para um concerto. Continuou contando que se inspirava nas pessoas que sofriam, mas seguiam em frente: a mãe de Jeanne, mesmo em cadeira de rodas, cuidava do marido com Alzheimer e ainda arrumava tempo para conversar e ajudar amigos e parentes; a amiga Sarah, com leucemia, sempre sorrindo, escrevia mensagens otimistas para os amigos; vovô nunca reclamava de dor, apesar da idade avançada; tio Haroldo caiu da escada, com o rosto no chão, quebrou nariz e cotovelo, levou pontos e pinos e, algumas semanas depois, já estava tocando acordeom e dançando forró com sua jovem namorada.
E ele achou que a irmã iria lhe dar um consolo?
- Grego, meu amigo, - disse Vidal - você não quer admitir que seu problema tem fundo emocional, não é? Você leu Bruce Lipton e sabe muito bem como as células recebem as informações do seu pensamento. Atrás de sua dor de dente, o “fora” que você levou já estava sufocando você. Conheço você, meu amigo, e sei da sua sensibilidade.
Gregório tremeu! Como a dor emocional pôde comprometer seu raciocínio e discernimento?
Esperava que a razão imperasse e resolvesse a situação, porque queria sair dessa, equilibrado. Mas reconheceu que teria de parar de "bancar o super-herói". Não conseguiria ganhar a luta contra a emoção, porque algo estouraria por dentro e o prejuízo seria maior.
Lembrou do que o amigo Juca sempre diz: “A tristeza causa câncer!"
- Quer saber? – disse pra si mesmo – Cansei! Tenho que achar uma saída!
NADA MUDA SE EU NÃO MUDAR! – insiste seu grupo de apoio.
Virou a chave do pensamento.
RENDA-SE! ENTREGUE-SE! Não adiantava ficar teimando que iria ser forte! Pegou o celular e perguntou pro Dr. Paulo: “O que posso tomar pra dor de dente?" Não teve coragem de entrar em detalhes, mas nem precisou, porque só a coragem de reconhecer que precisava de ajuda já tinha lhe dado alívio e mudado seu humor.
Encarou os remédios e melhorou. Foi um bom começo, mas ainda precisaria trocar as lembranças negativas por pensamentos positivos.
Decidiu encarar o resto da viagem e não mais pensar no quanto tinha desperdiçado em euros e em tempo, perambulando quase desmaiado pelas ruas de Roma e nos dias que se contorceu na cama do hotel em Firenze.
Imaginava que um dia teria que voltar para a Itália, para ver o que tinha perdido.
ERA AGORA O MOMENTO DE APROVEITAR!
Sim, agora, na bela Lombardia, era o momento. Sorriu, feliz por ter acordado de um pesadelo.
Alguém poderia dizer que "era apenas uma dor de dente!", mas ele sabia que algo dentro dele se alimentou de sua tristeza sufocada, cresceu e o possuiu.
Metade da viagem tinha sido abalada, mas tinha deixado a lição que só quem sofre conhece sua dor (que às vezes nem consegue revelar)!
A outra metade daquela viagem também foi complicada, mas agora não queria pensar!
A ordem seria SEGUIR EM FRENTE, comer "Tortelli di Zucca”, "sbrisolona" tomar um sorvete e se deixar enfeitiçar pelo que tinha desperdiçado anos atrás.

Só percebeu que anoitecera, porque a tarde mudara de cor.
- BUONA SERA!
Cumprimentando todos que encontrava, para treinar seu italiano, correu para encontrar as meninas, que o aguardavam na casa de Adriana. Comeriam uma pizza e voltariam para o agroturismo para desfrutar uma noite de paz na verdadeira BELLA ITALIA!
VIAGEM PARA O FUTURO:
Anos depois perdeu aquele dente, porque realmente estava trincado. Por que não levaram a sério sua reclamação? Por que não solicitaram uma tomografia?
Esqueceu as decepções amorosas e felizmente encontrou Adelaide, a companheira ideal, em busca de ser uma pessoa melhor a cada dia, em constante superação.
TUDO PASSA... até chegar em outra situação... até passar também!
Continua na parte 13




Quantas vezes acontece de termos nossas dores ou sentimentos comparados às de outrem e quanto isso nos piora? Uma vez, questionando isso, sentindo-me egocêntrico demais pela comparação que eu mesmo fazia, aquele saudoso amigo filósofo, que a tudo reduzia a quase nada, me disse: "É normal! O que dói mais: aquele câncer avançado do Fulano ou um alfinete espetando seu dedo?" "A dor da gente não sai no jornal" Chico
Parabens pela sensibilidade do texto e nos ajudar a entender que precisamos aprender a resolver nossas crenças