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DESCONSTRUINDO E RECONSTRUINDO VALORES (Parte 3 - "Gregório e seus amigos")

  • Foto do escritor: Branca Martins
    Branca Martins
  • 6 de mar. de 2021
  • 7 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2022

(Acompanhando Gregório em sua função. Uma história de sobrevivência em relacionamentos com amigos, parentes, fantasmas e outros seres especiais, reais e imaginários, dentro e fora de si mesmo!)

Gregório e grandes mulheres!

Bruna acordou bem cedo com o canto muito engraçado de um galo. Parecia estar engasgado: começava a cantar e não conseguia sustentar a nota. Resolveu levantar e ir sentar na varanda; talvez conseguisse meditar um pouco. Olhou ao redor, sentiu o perfume das flores de ora-pro-nobis e escutou de novo o estranho canto do galo. Procurou o galo e encontrou uma galinha batendo as asas, esticando o pescoço e cantando. Nunca pensou que uma galinha pudesse fazer isso.


GRIGIA ENSAIANDO


Quando Gregório acordou, contou que eram três: Nino, o galo, e duas meninas. Eles ficavam sempre juntos, ciscando soltos no quintal. Depois que Nino morreu, Grigia, a galinha cantora, começou a ter esse comportamento, cantando igual a um galo. E agora, que Xilela estava chocando, Grigia cantava na frente do ninho onde ela estava.


FINALMENTE CONSEGUIU


- Mulheres valentes! Temos que aprender com elas! Disse Bruna. Os dois riram, encantados com o inusitado.

Sentaram-se na varanda, tranquilos, como não faziam há muitos anos, sendo que Bruna morava em Amsterdam desde a adolescência com tia Eunice, irmã do pai.


Amsterdam

- É bom estar aqui, Gregui (como, desde criança, ela o chamava), embora seja nostálgico estar nesta casa, que me traz um misto de lembranças boas e ruins. Queria muito ver e ouvir você e conversar sobre o que aconteceu desde que parti. Na verdade, não tinha ideia do que ia acontecer, nem mesmo sabia quem eu era.

- Imagino!

- Tia Eunice me contou que vovô era um jovem simpático, culto e elegante, que quando chegou da Guiana Holandesa para trabalhar no Rio, impressionou a vovó, branquinha de olhos azuis, que logo se apaixonou perdidamente por ele. Assumiram o relacionamento, enfrentando os preconceitos da época, se casaram e tiveram papai e ela.

- Papai sempre evitou falar sobre nossas raízes!

- Você vai entender o motivo. Vovó adoeceu e faleceu cedo, infelizmente, deixando vovô com duas crianças. Ele se dedicou totalmente a cuidar dela até ela partir. Por vários anos, cuidou da casa e das crianças, mas depois se casou de novo, quando papai ainda era adolescente. Papai sofreu muito a perda da mãe, do pai para outro casamento e, logo em seguida, a irmã (tia Eunice), que foi cursar Artes Plásticas na Holanda e se casou por lá. Papai sentiu-se abandonado, agarrou-se aos estudos e ao trabalho, mas despencou em autoestima. Assim que conheceu mamãe, bem mais velha, bonita e exuberante, casou-se logo. Os traços narcisistas dela se encaixaram com a fragilidade dele, que ansiava ser protegido. Assim, ela fortaleceu seu temperamento e ele enfraqueceu o dele.




- Horrível ver o papai deprimido, Bruna. Aquele ambiente só fez a gente sofrer. Eu achava que ele era fraco e incapaz, sendo subjugado, porque aceitava ser tratado como raça inferior. Foi penoso a mamãe ter desconfiado que ele tinha outra mulher e tê-lo expulsado de casa. Ele sofreu, mas depois conseguiu ter um pouco de vida. Pra mim foi muito complicado!

- Você foi mais corajoso que eu. Não aguentei viver em função da história deles.

- Corajoso? Ou medroso? Aquele temperamento da mamãe me dominava. Depois, a doença acabou com ela aos poucos e ela ficou frágil e dependente. Enfim, não me arrependo por tê-la acompanhado até o fim. Sentia que era responsabilidade minha.

- Querido, queria ter tido forças pra ajudar, mas não tive. Achava que seria mais uma a enlouquecer.

- Tive raiva de você, mas no fundo também inveja.

- O ambiente na casa da Tia Eunice era tão tranquilo e cheio de paz, que eu estranhava. Parecia que faltava algo, como se tranquilidade não fosse normal e algo ruim fosse acontecer. Às vezes me deprimia, sem saber curtir o momento e ela nada questionava.

- Ela bem sabia como era o clima aqui em casa!

- Foi a mãe que eu queria ter tido. Sempre me apoiava e realçava meu potencial, quando eu me sentia insegura. Ela me orientava, mas não fazia por mim o que eu tinha que fazer. Tive que enfrentar escola e trabalho, sem falar direito a língua.

- Língua difícil pra caramba...

- Pensei muitas vezes em voltar, mas daí o tio Louis sofreu aquele acidente e eu não pude deixá-la só, com as duas crianças. Senti que ela precisava de mim, embora não demonstrasse. Mesmo sofrendo, nunca vi aquela baixinha encolher: esticava o pescoço e sempre se posicionava com assertividade. Cuidava das contas, dos documentos, das compras, foi pai e mãe da família, saía pedalando para o que precisasse e sempre achava tempo para pintar, fazer exercícios, cultivar o jardim e meditar.

- Mamãe só falava mal dela. Sabe como mamãe era machista. Só elogiava os homens. Lembro dela desmerecendo você também. Que loucura esperar que a mãe da gente seja perfeita, não é?

- Pois é. Se hoje a sociedade é machista, imagina na época dela. Eu me vi muitas vezes com raiva das mulheres também, inclusive de mim mesma. Foi até difícil gostar de meu próprio nome. Mamãe mudava o tom da voz, quando me chamava. Tive ainda mais antipatia quando soube que Bruna quer dizer morena.

- Ah, ter nome de cor é complicado! Minha amiga Branca, a escritora, me contou que também foi difícil aceitar o nome dela.

- Hoje vejo que o nome faz parte da melodia do que somos. A gente muda! Já me incomodou muito, mas hoje amo minha pele e tenho prazer em ser eu mesma. Aprendi também a olhar pra dentro e estou amando me desvendar.



- Na Holanda você sentiu preconceito?

- Sim, e não só lá. Acho que existe no mundo todo, infelizmente! Um dia conversei com tia Eunice sobre isso e ela disse: "Preconceito (de gênero, cor, raça, espécie…) é sentimento medíocre! Somos todos diferentes por fora, mas você sabe que a alma brilha? Quando as pessoas conseguem ver a sua alma, elas brilham também e ninguém perde tempo com pensamentos medíocres! A gente honra o tempo, se amando!"

- Que beleza de cabeça!

- Ela é incrível. Enfim, o preconceito ainda me ameaça, mas eu luto para que não afete o que eu tenho que fazer. Invisto no meu potencial, pra que ele seja sempre maior que meu medo! Amo o que faço, estudo bastante e me dedico muito ao quarteto de sopro. Às vezes tocamos no Concertgebouw. Somos amados por lá. Você tem que ir ver a gente!


CONCERTGEBOUW


- Talvez seja o momento de ir lá ver vocês, tia Eunice e os primos, sem lembranças de fofocas e antipatias do passado. Também tenho que me aproximar mais do papai e do vovô, que está bem velhinho!!!

- Acho ótimo!

- Na verdade, além de relacionamento familiar, também vivo em crise com as mulheres. Lembro sempre de você dizendo que eu tenho o "dedo podre".

- Verdade: eu sempre disse que você tinha o "dedo pobre" e nunca disse que ELAS eram podres! (risos) Vamos deixar claro? Nunca achei que ELAS eram podres, nem que você era podre. Só um dedo seu! Nada mais, porque todo o seu resto é maravilhoso!

- Esse dedo já fez muito estragos. Sempre me relacionei com pessoas problemáticas; se não eram, acabavam ficando.

- Gregui, eu também uma vez me lastimei com tia Eunice que nunca iria encontrar a pessoa ideal. Ela parou a pintura e me mostrou um pincel sujo de tinta: "Se eu usar este pincel sujo, ele vai borrar todo o quadro!"

- Então é a cor do meu dedo podre que mancha todos os meus relacionamentos?

- É isso! Você é uma pessoa muito especial e inteligente, meu querido! Sua sensibilidade absorveu tanta coisa negativa, sem se proteger, sem estabelecer limites, que acabou se machucando. Será que você acha que seu casamento fracassou, porque você deveria ter tentado até sangrar??? Você e eu podemos mudar a tinta com que pintamos nossos quadros. Não precisa ter a mesma cor da história de nossos pais. Sei que você também já sabe disso!

- Sim, sei... mas não sei!

- Até o fato de ter começado a estudar Psicologia tem a ver com seu desejo de entender isso tudo, não é? Quem é que tem coragem de se ver e se analisar como você faz? Não conheço ninguém como você: tão exigente que chega até a ser cruel consigo mesmo. É hora de aproveitar tudo o que você tem de bom. E não é pecado ser feliz! Não é? Ou é?? (risos)



Os dois riram e a varanda se encheu de paz. A mangueira estava carregada de frutas amarelinhas e as maritacas, os joãos de barro, os periquitos, as rolinhas, os sabiás, todos conversavam e bicavam as frutas; os beija-flores vinham pertinho beijar as flores, o Jacu voava pesado e sossegado, procurando jabuticabas, e nada parecia se importar com os humanos, nem com os cachorros (que se sentiam humanos também!).

Xilela saiu do ninho, veio rapidinho beber água e ciscar no quintal ao lado da Grigia, a galinha cantora, e depois voltou correndo pro ninho.



-Mas o galo morreu, o que ela está chocando?

- Nada...ela fica choca, mesmo sem ovos pra chocar. Eu respeito o momento dela! Logo passa!

Desfrutando o lindo dia ensolarado, que iluminava a vida que estava acontecendo em cada planta, em cada animal, em cada inseto... as conversas fluíram sobre os amigos da infância, os pets que tiveram e as brincadeiras no quintal.

Bruna teve até vontade de ficar, mas seguiria o impulso do coração, consciente que sentir-se dividida seria parte de sua história para sempre.

Gregório percebeu-se mais leve, fluindo com suas raízes.

Não precisaria girar em torno de reclamar e de procurar culpados no passado, para os diários desafios da sobrevivência. Poderia apreciar a abundância da manifestação da vida, aproveitar essa energia e direcionar o rumo de sua história para um epílogo agradável. Poderia abraçar o lado bom das pessoas e poderiam seguir juntos, acompanhados, como anseia o coração.

- Deu uma nostalgia feliz, não deu? Vamos lá pegar o vovô e o papai? Será tão bom passarmos a tarde juntos! Quem sabe podemos planejar irmos visitar vocês?

-Vamos, Gregui! Que beleza podermos fazer as pazes com o passado! Afinal, nenhum de nós é o mesmo: nem as plantas, nem os cães, nem as galinhas!

(risos)



A narradora onisciente diz que todos os personagens (pessoas, animais e plantas) são pedaços de verdadeiros que, com certeza, neste momento, já não são mais os mesmos que foram no passado! Já aproveitaram, como ela mesma, a energia da vida em movimento e mudaram, para melhor viver o presente!!!!

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