ESTAMOS JUNTOS! (Gregório e seus amigos - Parte 1)
- Branca Martins

- 13 de nov. de 2020
- 9 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
"O reencontro"
Cold turkey?? Ah... esse termo ele ouviu há tantos anos, quando aqueles amigos tentaram deixar a droga e lutavam contra o vício. Não se acalmavam. Agitados, andavam de um lado para o outro, mordendo os lábios, roendo as unhas, batendo os pés freneticamente, piscando, sentando, levantando, tentando ler, escrever, estudar, trabalhar, sem resultado algum. Tudo parecia infernal. Ora não tinham fome, ora comiam demais e até vomitavam. O corpo procurava um descanso, mas a mente não permitia. Quando tentavam conversar, seus olhos irrequietos olhavam para todos os lados e não fixavam atenção em lugar algum. Parecia haver um ser independente dentro deles, um inimigo que os consumia, os torturava, lhes ditava ordens, lhes liderava os passos e apontava um só caminho: aquele!
Mas seu amigo Frederico não usava drogas! Embora tivesse abusado com algumas bebedeiras, ocasionalmente, em festas de família ou de amigos, via de regra sua rotina era normal: de casa pro serviço e vice-versa. Às vezes, depois do trabalho, quando se sentia muito tenso e irritado, tomava uma cerveja, buscando alívio, como sugeriam os comerciais.
Trabalhava demais e muitas vezes trazia serviço para casa, principalmente aos fins de semana, o que justificava a costumeira dor de cabeça. Usava alguns analgésicos e medicamentos para controlar a pressão.
Por sorte, aquela tarde, ao sair do serviço, esbarrou em Grego, que o convidou para tomar um café, ou qualquer coisa, contanto que valesse um bom papo. Eram amigos desde jovens e nunca conseguiam um bom momento de conversa, principalmente depois que Grego se divorciara. Como antes saíam sempre em pares, agora não mais se encaixavam.
Grego, entusiasmado por ter encontrado o amigo sozinho, insistiu e conseguiu que parassem para conversar. Começou a contar de suas viagens e mostrou-lhe umas fotos que havia tirado. Muito semelhante com o que acontecia com seus amigos de outrora, em fase de abstinência, estava difícil manter Fred concentrado. Parecia estar fora de si, em algum outro lugar, ou em vários. Tinha pressa, pulava as fotos sem ver, não questionava, não observava e só emitia algumas palavras sem nexo, decoradas, pra gastar o tempo e sair dali. Dizia que não poderia demorar, pois teria que resolver uns assuntos emergentes, tipo: serviço, contas, dever dos filhos, doença da mãe e do tio, enfim, iria embora logo.
Grego tentou ajudá-lo, lembrando da importância de relaxar, soltar as rédeas, respirar e se concentrar no momento, conforme ele fazia no seu recente grupo de meditação. Tentou mudar de assunto, falar de ciência e filosofia, mas nada o acalmou.
“Você está bem, Frederico? Está com problema de dinheiro? Doença? O que está acontecendo? Eu sou seu amigo. Me conta!"
“Estou bem, sim, Gregório. Nada está acontecendo. Ou quase nada!" Justificou que estava cansado, estressado, esgotado e que estava difícil raciocinar. Eram tantas preocupações, mas que faziam parte da vida de casado e ele estava acostumado.
Grego sugeriu que ele tirasse umas férias, fizesse meditação, exercícios, ou praticasse algum esporte. “Seria bom – respondeu - mas meu trabalho é muito intenso e em casa também não está fácil. Tenho que dar atenção às crianças e resolver tantos problemas. Wilma é muito ansiosa, está sempre tensa e também não se cuida. Já tentei falar com ela a respeito de academia. Poderíamos ir juntos. Realmente teríamos que fazer algo!"
Aos poucos começou a relaxar e a explicar que sua saúde não andava bem. Tinha uma sensação de aperto no peito, uma tosse enjoada, que talvez fosse problema cardíaco, ou mesmo estresse ou depressão. Acabou confessando que a vida de casado não estava nada boa. Os desentendimentos com a mulher só aumentavam com o tempo e, quando a situação econômica apertava, ela o torturava dando indiretas, fazendo-o sentir-se fracassado e incompetente. Ela reclamava muito que era obrigada a resolver sozinha os problemas da família, acusando-o de ser desligado e um estranho no lar.
Quando estava entrando em detalhes sobre seu relacionamento, foi interrompido pelo celular. Olhou o identificador, fez cara de irritado, enojado, ao mesmo tempo assustado, como se tivesse sido pego em flagrante, por estar falando dela. Ficou totalmente transtornado. Piscava muito, dizia meias palavras, gaguejava, como que amedrontado, em meio aos sins e nãos, tentava se justificar por não ter ido pra casa direto do trabalho, pediu desculpas e disse que voltaria logo. Ao desligar, tremeu e engasgou nas palavras.
“Era Wilma! Está aflita com tanto serviço, precisando de tanta coisa; quer que eu passe na padaria e pegue uns pães. Quis saber onde eu estava, com quem, e porque não tinha chegado ainda. Vou ter que ir embora, senão ela fica muito nervosa e me deixa louco!"
“É cedo, a gente ainda nem conversou direito!" Grego sabia, desde os tempos que os casais saíam juntos, que Wilma era dramática e controladora, mas Fred, embora reclamando sempre dela, não conseguia pensar em outra coisa, a não ser em como conseguir satisfazê-la. Ela o controlava desde o primeiro passo da manhã, até o fim da tarde, quando lhe pedia um relatório completo de todos os acontecimentos, e tentava ver se batia com o que ele dizia nas ligações que ela fazia durante o dia. Ele tentava esconder alguns acontecimentos, até mesmo porque esquecia o que tinha acontecido, mas em geral ela o questionava de modos tão diferentes que ele acabava caindo em contradição e, eventualmente, se atrapalhava. Daí eram horas de questionamento atordoante, com perguntas, respostas, repreensões e críticas, até que ele, derrotado, pedisse desculpas. Por isso ele preferia evitar o que não conseguiria negar.
A partir daquele telefonema, ele não conseguiu parar de olhar no relógio, no celular, na porta do bar e nas mãos, que não paravam de tremer, enquanto balançava a chave de casa.
“Calma, você não precisa sair correndo, relaxa, fica mais um pouco, vamos conversar." Suas palavras escapavam ao vento, pois Fred parecia estar hipnotizado.
“O problema é a WILMA, não é? Você nunca pensou em se separar?” Arriscou perguntar.
Oh, céus, que difícil foi ouvir sua extensa justificativa e os elogios a respeito dela. De repente Fred esqueceu os desencontros e descreveu compulsivamente o quanto ela era uma pessoa valente, decidida, séria, trabalhadeira, boa mãe, ativa, criativa e inteligente; entretanto andava muito cansada, esgotada com tantos afazeres. Os filhos davam muito trabalho, a casa, o serviço, o chefe e o trânsito eram terríveis. Completou: “Coitada da Wilma, tenho pena dela!”
Grego se arrependeu por falado em separação! Escapou esse comentário, porque no fundo ele já havia notado que o relacionamento deles não era bom. Mas quem era ele para falar sobre relacionamento, se ele próprio não tinha conseguido manter nenhum dos seus? Lembrou-se de quantos já tinha tido, além de seu casamento desastrado. Não era à toa que sua irmã dizia que ele tinha o "dedo podre”; termo que ela usava, referindo-se a seus envolvimentos com pessoas estranhas, complicadas e problemáticas. Concluindo, diante dessa fama e de um histórico com tantos fracassos amorosos, certamente seu amigo também não lhe daria credibilidade.
Por outro lado, percebeu que foi um erro ter falado em separação. Aquilo foi demais! Fred jamais teria força para tomar uma atitude assim drástica. Era óbvio que essa possibilidade só iria assustá-lo ainda mais e, com certeza, ele acharia mil argumentos para justificar a forte ligação, de muitos anos, que tinha com ela.
Grego se recriminava, arrependido por não ter ficado quieto. Deveria tê-lo ouvido, só isso. Conselho algum faria sentido naquele momento. Deveria ter sido mais sutil e levar em consideração que realmente ela não era má pessoa, tinha muitas qualidades e havia muitas vantagens naquele relacionamento. Sem dúvida não poderia jogar tudo fora! A solução talvez nem estivesse em uma separação. Não deveria ter sido tão radical! Dessa forma, perdeu a oportunidade de ajudá-lo. Na verdade, ele tinha ficado tão indignado ao ver o amigo desequilibrado daquele jeito, que não se conteve.
Cold turkey, ele pensava e comparava Frederico a seus amigos em crise de abstinência.
Não conseguia tirá-lo da cabeça. Lembrou-se de seu próprio casamento desajustado. Quando alguém sugeria separação, ele ficava apavorado, embora ele mesmo tentasse se convencer que essa seria a única saída. Lembrou-se da loucura ao tentar mudar a ex mulher, querendo que ela entendesse que ela estava errada. Lembrou-se das discussões ofensivas e das birras ilógicas, que duravam dias. Até que, um dia, ela decidiu pedir o divórcio. Ela, que supostamente era o problema, impotente, de inteligência limitada, vazia, tola (sempre como ele a julgava)... Pois é, ela, que, a seu ver, não conseguiria viver sem ele, não aguentou sua chatice, sua exigência, implicância e sua cara de infeliz.
A decepção, a sensação de fracasso e a dor da rejeição foram tão violentas que pensou em se suicidar. No fundo do poço, resolveu procurar ajuda. Hoje era acompanhando por um profissional e participava em grupo de apoio, por isso se sentia mais forte. Tinha encontrado uma direção para sua sanidade, mas entendia ser frágil e ainda poderia deslizar, com seu "dedo podre", para outro caso complicado. Tinha já entendido que quem teria que mudar era ELE, senão só repetiria o mesmo padrão, tentando encontrar uma pessoa perfeita.
Abandonou a causa do Frederico e se perdoou por ter invadido uma situação tão complexa. Sabia, por experiência, que conselhos todo mundo dá, mas ninguém sabe o que se passa na vida a dois. Entendeu que não estava em suas mãos consertar a vida do amigo; e que ele, provavelmente, em sua casa tomaria sua droga de preferência, a seu modo, como conseguiria, e ponto final.
Agora só restava esperar! Fred tinha se irritado com o final da conversa deles, despediu-se apressado e mal quis ouvir, quando Grego gritou: "Se precisar de um amigo, me liga! Vou com você procurar ajuda!"
Em casa, Fred e a esposa se atritaram, falaram alto, se ofenderam, depois abaixaram o tom, resmungaram e desistiram de brigar. Fizeram lanches, as crianças pegaram os seus, foram comer em seus quartos e eles foram comer na sala e assistir TV, como faziam todas as noites.
A novela mostrava o mundo contraditório cheio de glamour, ódio, prazer e dor, tal qual a vida que levavam. Ora era frágil, competitivo, agressivo, ora era cheio de humor, amor e faz-de-conta. Assim eles alimentavam a subvida da fantasia, dos corpos cheirosos, do afeto, do sabor da bebida e da comida, da vingança e da realização. Criticavam os atos imorais, desonestos e solucionavam as histórias como queriam que fossem. Criticavam as mulheres porque, segundo eles, se ofereciam para provocar os homens. Explicavam que estupro, divórcio, homossexualismo, prostituição, violência eram resultado de pessoas fracas que não conseguiam lutar por um relacionamento sadio, como eles, que eram valentes, enfrentavam e aguentavam tudo pela família.
Clicando o controle remoto rapidinho sobre o noticiário sangrento, se saciavam com a vingança que castigava corruptos, prendia e matava bandidos. Cansados da realidade, que parecia distante, paravam nos pregadores que ditavam regras e ameaçavam com desgraças e sofrimentos eternos, mas... que poderiam ser aliviados com doações e sacrifícios. Wilma orava pedindo saúde e proteção para seu lar, contra acidentes, marginais e outros males. Acendia velas e colocava água perto da TV para ser benzida. Orava e tinha fé que seu marido jamais a trairia porque sabia que ele não viveria sem ela. Bem verdade é que ele mal sabia cozinhar ou cuidar de suas coisas. Ela sempre o orientava quanto ao que vestir, comer, dizer, com quem falar, inclusive com quais parentes ele poderia se relacionar. Insinuava que ele não tinha personalidade e poderia ser influenciado pelas más companhias, que ela dizia serem os divorciados, as mães solteiras, os ateus, os homossexuais e os comunistas.
Fred às vezes queria assistir alguma coisa diferente na TV, talvez um pouco do futebol, mas era Wilma quem sempre escolhia os programas. Quando deixava que ele assistisse, ela ficava por perto, sem olhar na tela, sentava, levantava, xingava as crianças, arrumava a almofada, chamava o gato, puxava a mesinha, limpava onde ele colocava o copo e não parava de falar. Os filhos gritavam e se picavam em provocações, riam e corriam. Apareciam para pegar uns petiscos na geladeira, reclamavam um do outro, mas voltavam logo pro quarto com suas atividades no celular, na TV ou no computador.
Certa vez ele arriscou falar com ela a respeito da angústia que trazia no peito, devido à repressão do governo, dos impostos, da intriga dos colegas e do diretor da empresa. Ela mudou de assunto rapidamente, pedindo que ele deixasse de ser covarde, porque a família dependia do salário dele. "Você não sabe o que eu aguento", disse ela, contando de seu chefe neurótico. Acrescentava que, por ser mulher, tinha um salário baixo e trabalhava em dobro: fora e dentro de casa. Além disso, tinha dores, alergia, tontura, cansaço, etc. Ainda bem que conseguia alguns momentos de paz na TV, quando podia relaxar e não pensar.
Às vezes parecia que a vida deles era tão boa e que eles tinham probleminhas normais de um lar com filhos adolescentes. Fred criticava a esposa, mas entendia a inocência atrás da chatice dela e muitas vezes sentia saudades. Principalmente quando estava fora de casa, tinha um desejo grande de chegar ao lar, ao seu cantinho, sua mesa, seu sofá, sua cama, seu escritório, seu banheiro. Entretanto, quando chegava, constatava o inferno, exatamente o oposto da paz que ansiava. Questionava-se se teria que suportar tudo aquilo para sempre. Pensava que o ideal seria morrer logo e ficava imaginando como morreria: um acidente na estrada, um enfarte, algo rapidinho, sem dor, sem hospital.
“CHEEEGAAAA!!!!" Ele se imaginou gritando. Continuou sonhando: "Para de falar, mulher! Você parece uma matraca, metralhadora, parece que o mundo gira em torno de você, estou cansado dessa conversa imbecil, de sua reclamação, de TUDO!!!” Parecia escutar seu inconsciente reprimido e sua frustração por ser um indivíduo dependente, sem vontade própria, sem sabor e valor. Algo se revoltava dentro dele, exigindo que ele fosse macho valente. Os pensamentos o sufocavam e lhe ordenavam a se livrar daquela droga de casa, da gritaria, dos filhos, da sujeira, da cobrança, da falta de compreensão, da mediocridade e, principalmente, da mulher, que se tornara uma megera e o dominava.
Pensou em sair correndo, cuspindo, xingando, mas, como sempre, aquilo seria só mais uma crise de pânico reprimida. Levantou, pediu licença pra Wilma e foi se deitar, alegando estar cansado e com dor de cabeça.
Realmente Wilma tinha razão, ele pensou: "Eu sou um fracassado!" Estava dolorido, confuso, amargurado, desequilibrado e constatou que não conseguiria sair daquela situação sozinho. Lembrou-se do amigo, pegou o telefone e escreveu: “PRECISO DE AJUDA!"
Grego deu um pulo, largou tudo que estava fazendo, teve vontade de escrever muitas coisas, mas sabia que o primeiro passo, o mais importante de uma longa estrada, já tinha sido dado, por isso apenas respondeu: “ESTAMOS JUNTOS!"




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