ENTRE EMOÇÃO E RAZÃO - (Parte 7 - " Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 15 de jul. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
("Então, com aquela idade, Dona Nicoletta ainda estava mudando? Gregório se questionava se isso tinha alguma relação com a mudança da Adelaide.")
A ACOLHIDA
Entrou no carro, viu um papel no para-brisa, tirou, viu que parecia um poema e jogou no tapete do carro. "Quem estaria perdendo tempo em distribuir poesia? Algum poeta fracassado? Talvez alguma mensagem religiosa, ou alguém pedindo dinheiro?"
Não estava com humor para ler poesia, ou qualquer outra coisa. Queria continuar no clima daquela conversa com a avó de Adelaide.
Na esquina de casa, escuta seus cachorros latindo. Eles já estavam no portão esperando, abandando os rabos, com alegria e pulando, como se não o vissem há muito tempo.
- Ah, que delícia ver vocês, crianças! Nada como ser recebido com esse agrado!
Entrou, cuidou deles, das galinhas, pegou uns restinhos de comida da geladeira, fez uma salada e foi almoçar na varanda. Passou o resto do dia em silêncio, metabolizando o giro da história de tantos anos contidos na revelação de Dona Nicoletta. Embora ela se posicionasse com assertividade e sabedoria, ela lutava contra o sentimento de culpa e a depressão, substituindo pensamentos negativos e memórias tristes por otimismo e esperança. Grego pensou na figura de Anselmo, que não conseguiu enfrentar o transtorno familiar e acabou adoecendo e sucumbindo à tristeza. Depois entristeceu ao pensar que Chiara não conseguiu desfrutar de sua jovialidade, não encontrou alternativas para se realizar e impactou tantas pessoas ao redor de sua infelicidade. Por fim pressupôs que todo esse grupo familiar estava condensado em uma só pessoa: Adelaide, que por muito tempo carregava o peso da responsabilidade nas costas.
O dia empurrava o relógio e impunha tarefas.
Gregório rastelava o quintal e juntava as folhas, enquanto meditava. Decidiu que faria uma compostagem dentro do galinheiro, já que as galinhas ficavam soltas e só entravam lá para dormir.
Embora apreensivo com o novo comportamento de Adelaide, que parecia se distanciar dele, sentiu-se seduzido e inebriado pelo cheiro da terra, como num estado de graça. Cada pedra, cada bichinho, cada folha caída, tudo parecia fazer parte de um quadro romântico e nenhum matinho era "nonsense" - nada era uma chatice sem sentido.
Olhou para o pôr do sol, teve um ímpeto de ligar para Adelaide, mas se conteve, criando em sua mente a imagem dela em uma paisagem bucólica, talvez na Austrália.

Tomou um banho, colocou os cachorros no sofá e deitou com eles pra ver um filme. Acabou dormindo lá mesmo.
Segunda feira, acordou torto, comeu alguma coisa e foi pro trabalho. O dia todo procurou mensagens dela e esperou uma ligação. Começou a escrever várias mensagens, mas desistiu de enviar. Terça feira foi igual, o dia todo num misto de ansiedade, aguardando uma ligação, e se entregando a esperar. No final da tarde, decidiu que iria até a casa dela. Entrou no carro, viu o bilhete que tinha jogado no tapete e resolveu ler.
(...)
Muito louco! Por que alguém colocaria isso no seu para-brisa? Mas agora o que importava era ir até a casa de Adelaide. Estacionou a alguns metros dali, caminhou até o portão, olhou lá dentro, viu luzes acesas, mas não chamou. Sentou-se na calçada, pensou um pouco, levantou e resolveu voltar pra casa. Precisava parar de matutar, confiar que tudo daria certo e ter paciência. Esperaria até amanhã.
Entrou no carro, deu partida e notou que havia outro bilhete no para-brisa. Que brincadeira boba! Quem estaria querendo mexer com ele? Olhou em volta, pegou o bilhete e leu: era outro poema. Sorriu e foi embora.
(...)
Na quarta feira já estava mais calmo, decidiu ligar pra ela.
Ela não atende e grava uma resposta, dizendo que não poderia falar, porque estava em uma agência de viagens com a avó, consultando sobre excursões para a Itália.
Gregório paralisa, surpreso e enciumado: "Como assim, viajar pra Itália?" Pensa em escrever algo, mas desiste.
Aguarda outro dia e outro dia, lutando contra a sensação de rejeição, meditando, refletindo, procurando raciocinar e entender todas as palavras e silêncios, perguntas e respostas. Questionando seus sentimentos e aflições, reações e expressões, tentou fazer sentido de todos os detalhes, de todos os movimentos e acontecimentos, não permitindo escapar nada de sua razão e compreensão... até se esgotar em pensamentos e dúvidas... até acabar a semana.
No domingo escreve uma mensagem, perguntando:
- Posso passar em sua casa hoje à tarde?
- Claro! Venha jantar conosco.
Aliviado, entendeu que sentir-se acolhido e aceito era muitíssimo mais importante do que todo o raciocínio.
Mais uma vez a emoção acolheria a razão em seus braços e ele respiraria em paz!
Continua na parte 8




Meu domingo começou muito especial com a leitura dessas linhas
... As palavras fluem em forma de imagens e é possível assistir, no plano mental, essa ciranda de pensamentos e sentimentos! Que todos os dias sejam domingo então .
Ahh, que trama de auto conhecimento do Gregório, estou ansioso pela outra parte.
No aguardo🤗 😘
Parabens
Gostei, emoção e paciência, uma dupla que causa um trabalho diário para alguns, eu me incluo nesse grupo.