AMIZADE ETERNA
- Branca Martins

- 3 de out. de 2020
- 2 min de leitura
SUA E NOSSA ESCOLA
Colegas, durante muitos anos, como discentes e docentes, minha querida amiga partiu muito nova, deixando três filhos (sendo um especial), além de muitos de nós perplexos e doloridos.
Quem partiu talvez não precise ouvir o que lhe dizemos, mas eu preciso dizer, imaginando que ela está me ouvindo.
"Seus curtos dias,
perto da imensidão da eternidade,
foram como espremer anos luz do infinito
em seu corpo frágil.
Sua vida assolou minha mente,
inquieta de tanto questionamento;
e sua morte parou o tempo
mostrando a nudez perplexa do agora.
A energia arrebatou o espaço que você preencheu,
se assumiu, cresceu e
rasgou o limite do entendimento,
pra que você vestisse sob medida
sua vida verdadeira, inteira e alargada.
Sua história não brincou de faz-de-conta
e fez questão de desvendar
os bastidores da fantasia,
minha e nossa.
Feliz meu peito chorou,
batendo nas suas asas livres,
mas pesou doído no egoísmo de meus apegos.
Percebi minha ignorância extensa
mergulhada na impotência do conhecimento humano.
Sua angústia, que buscava uma saída,
ficou estampada no meu espelho
e no de cada um,
que tentava se cobrir com ilusões e planos.
Entendi que fatalmente
a saída tivesse vindo em busca do anseio,
que se entregou ruidosamente,
despertando um por um de nós todos
da mentira hipnótica
da segurança mundana.
Na despedida,
a mesma luz que brilhou, envolvendo-a com ternura,
nos iluminou e nos revelou sós,
covardemente encurralados nas cavernas do medo.
Gemi para aceitar minha fragilidade,
mas consegui perceber que tudo valeu a pena,
pelo tanto que você ensinou.
No momento, no tempo, sem passado e sem futuro,
você finalmente sorri firme
com a altivez de quem aprendeu, com a dor,
a enfrentar, sem falsear,
a crueza da verdade.
Hoje seus alunos
sou eu, nós e aqueles que aprendemos
que, com você, somos um,
na perplexidade do tempo,
na escola do sofrimento
e na energia do amor, que nos ressuscita
no mistério da vida,
com o despertar da morte."
Junho 1992 - Escrevi este pensamento e enviei à sua mãe, que foi em quem eu mais pensava e queria abraçar naqueles dias de luto. Ao ler, ela me telefonou emocionada, confirmando a sintonia e aprovando minha percepção da essência de sua filha amada. Choramos juntas e me senti mais forte para desvendar a energia da conexão. A passagem dela me envolveu e me carregou com dor e luz, para dimensões suaves e amorosas, através da cortina do tempo, como muitas vezes aconteceu nas despedidas de pessoas que amei. Era como se eu lhes estivesse fazendo companhia nesse momento.
Amanhã não sei, mas hoje cada emoção descrita neste poema passado vibra eterno em meu coração presente.




Comentários