ALÉM DA HISTÓRIA (Parte 6 - "Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 27 de jun. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
"A COMPOSTAGEM"
Vovó Ecco continuou o trabalho no jardim, podando os arbustos. Gregório carregava os galhos para a compostagem, mas sua cabeça estava longe dali. Ele queria falar sobre Adelaide. Não conseguia pensar em outra coisa. Quis entendê-la. Quem sabe poderia justificar sua atitude. Sabia que sua mãe havia morrido no parto e que o pai era um incômodo, mas era só, porque ela nunca lhe contara - ou talvez ele nunca tivesse querido saber. Agora, com o calafrio da rejeição, resolveu se interessar.
Diante da ansiedade dele, Vó Ecco fez uma pausa.
- È così, meu filho, tenha paciência, vai dar tudo certo!
Como Grego precisava de uma palavra positiva, tentou relaxar.

Ela o chamou para entrar, pegou um álbum e lhe mostrou um cartão, com a foto de um aborígene e uma frase: "Minha história é uma centelha de mim mesmo!"
- Você sabe que Chiara escolheu o nome de Adelaide, porque dizia que iria para a Austrália, quando ela nascesse? Infelizmente ela não chegou a conhecer a cidade chamada Adelaide, na Austrália, nem a filha.
De repente Gregório percebeu que "Adelaide" era um lindo nome, imponente, e que sua mãe, Chiara, não era só um ponto de interrogação, mas uma história.
- E o que aconteceu com sua filha Chiara, Dona Nicoletta?
Vovó Ecco engoliu seco, falou que preferia evitar memórias amargas e sorriu ao dizer que Chiara tinha sido uma adolescente querida, linda, mas rebelde.
- Eu insistia em corrigi-la, para explicar e conversar, esperando que ela crescesse e mudasse. Quanto mais eu argumentava, mais ela me contrariava. Eu tentava mudar o tratamento, ora agradando, ora endurecendo, mas nada funcionava com ela.
Engasgou dizendo que ela ia mal na escola, pedia dinheiro, saía, voltava tarde e eles não conseguiam controlá-la. Confessou, com a voz embargada, que eles deveriam ter procurado ajuda.
- Ela era inteligente, argumentava bem e nós achávamos que ela iria melhorar, mas seu comportamento só piorou.
Tentavam entender o que estava acontecendo, achavam que era próprio da idade e que saberiam resolver o problema. Será que era culpa da depressão da mãe, ou da rigidez do pai? Talvez rejeição durante a gravidez; talvez genética, ou talvez comorbidade, alguma síndrome, hiperatividade ou ansiedade?
- Quando Chiara engravidou, ficamos atônitos! Como vai cuidar de um bebê, se mal consegue cuidar de si mesma?
Chiara não se cuidava, trocava a noite pelo dia, até que adoeceu nos últimos meses da gestação. Ficou internada para não perder o bebê, mas ela não resistiu. Anselmo nunca se perdoou por não a ter protegido. Sentiu-se fracassado como marido e como pai, mudou muito, perdeu o brilho e adoeceu.
Nicoletta engoliu as lágrimas.
- Não é fácil perder uma filha! Éramos dois a combater a dor e a tristeza, evitando o choro e a prostração, porque tínhamos um bebê para cuidar. A morte de Chiara mudou o rumo de nossas vidas.
E continuou.
- A história dela não poderia ter sido em vão. Eu não deveria me limitar à ideia da vida horizontal, nascendo e partindo. Tinha que haver uma saída, por Adelaide, por Anselmo e pela energia da vida que me desafiava a ir em frente, mesmo me arrastando. Anselmo lutou muito, mas a saúde dele não aguentou. Eu tive buscar uma saída, senão morreria também... até que a saída me encontrou e me convidou a transcender em linha vertical, aprofundando raízes na espiritualidade e olhando para cima. O céu se abriu para Chiara e para mim também. Como não pude ir junto com ela, eu me agarrei à energia dela no Universo e continuei... e continuo.
- Dona Nicoletta, que forte isso! Desculpe, nunca pensei... !
Gregório, um pouco atarantado, achou que deveria mudar de assunto.
- E o pai de Adelaide?
- Ele desapareceu, a princípio, mas depois voltou para chantageá-la. É pai dela, mas não lhe dá esse direito. Felizmente ela não mais aceita manipulação.
- Então ela mudou com ele também. – Grego murmurou.
- Adelaide sempre foi o oposto da mãe, meiga, amorosa e boa, até demais. Felizmente hoje vejo que está buscando o equilíbrio. Está se cuidando. Acho que você tem que se cuidar também, meu filho.
- Você quer dizer que ela falou de mim?
Vó Ecco ignora a pergunta, não responde e diz que a vê sempre lendo, estudando e questionando a sociedade tradicional, que impõe conceitos opressores de felicidade para as mulheres, desvalorizando-as, se não se casam e não têm filhos.
Ela se ilumina ao falar de Adelaide, que está se permitindo aflorar sua identidade única e especial.
- Antes ela pensava em salvar o mundo; hoje está enfocada em salvar a si própria!
Grego entendeu isso como uma indireta para ele, se referindo ao fato de ela ter sempre aceitado um relacionamento tóxico com ele.
- Dona Nicoletta, será que ela vai me deixar?
- Não sei. Será que você vai se deixar?? Seria bom que nós mesmos deixássemos aquilo que um dia fomos, não acha?
Enquanto conversavam, ela separava fotos e ia rasgando as que lhe traziam más recordações.
- Vê estas fotos? O tempo passa! Se não aproveitarmos para melhorar, enquanto mudamos, certamente pioraremos, como estas velhas fotos! Antigamente eu tinha medo do futuro, hoje eu tenho medo de sucumbir com o passado.
Gregório olha as horas:
- Dona Nicoletta, já que o tempo passa e tudo muda, você não quer ir almoçar comigo?
O telefone toca e ela atende: “Olá Solange, sim, pode passar aqui... me dê meia hora. Tenho um lindo rapaz aqui na minha frente me convidando pra almoçar, mas, como já combinei com você, vou ter que declinar o convite dele! "
Piscou para Gregório e pediu licença pra ir se arrumar.
- Até logo, Greguy, obrigada por me ajudar na compostagem. Não é interessante ver como a energia sobrevive na decomposição de galhos e folhas descartadas? Às vezes não queremos matar nem enterrar nosso passado, mas podemos aproveitar a energia que sobreviveu a ele, para viver nosso presente e, talvez, nosso futuro...
Ele sorriu emocionado, abraçou-a e sussurrou:
- Obrigado! Entendi o recado!
Ergueu a cabeça e saiu. Sabia que teria que ficar sozinho, porque havia muito pra pensar naquele dia.
(continua na parte 7)




Parabens mais uma vez fofa. Voce consegue dar a possibilidade aos leitores entender dentro das suass respectiva experiencias de vida e compreensão.
Questionamentos fortes e corajosos 😘
Fiz confusão Maria respondi para vc e oara a Bianca.
Gostei muito fico esperando a próxima parte