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ACERTANDO AS PEÇAS DO QUEBRA CABEÇA

  • Foto do escritor: Branca Martins
    Branca Martins
  • 27 de ago. de 2020
  • 2 min de leitura

Atualizado: 15 de set. de 2020

NOVA IDADE SEMPRE NOVIDADE

Não será inédito pra ninguém ler sobre envelhecer, mas pra mim é inédito escrever sobre algo que não vejo. Como dizia minha mãe aos noventa e tantos anos: “Eu não sou velha, são os outros que acham que eu sou!”. Ontem um amigo olhou minha foto de alguns poucos 30 anos atrás e me perguntou: “Quem é essa moça?” e eu fiquei espantada que ele não me reconheceu. Se eu tivesse imaginado essa cena naquela época, teria ficado doida. Eu achava que, quando passasse dos 50, eu já teria feito várias pequenas plásticas, ao longo das marcas, para que nunca alguém notasse que o tempo havia passado. Mas, pra dizer a verdade, também senti aquela garota da foto meio estranha. Se viver é como andar de trem, me transportei de marcha ré para aquele tempo. Lembro-me que eu queria montar um quebra cabeça com as pessoas e com os cenários que passavam. Em cada estação eu parava e tentava encaixar as peças, na esperança de montar um quadro perfeito e dar por terminada uma obra de arte. Nunca dava certo! Um dia percebi que eu socava as peças pra ver se encaixavam; foi quando eu decidi me distanciar do tabuleiro pra observar o modelo proposto e a desordem das peças. Olhei pra mim com atenção, percebi meus contornos, enfoquei nas peças que suavemente se encaixavam comigo e libertei as outras peças pra que flutuassem e se encaixassem em outro lugar. Daí pra frente, minha bagagem ficou muito mais leve. Observei atentamente, com respeito e ternura, os detalhes de cada elemento que compunha o percurso e me apaixonei pelas diferenças. Acumulei energia e descarreguei fardos de tolices e desamores de peças desencontradas no passado. Se eu me agarrasse àquelas peças, acho que teria ficado sentada em alguma estação, reclamando das malas pesadas, chorando e com medo de embarcar pra continuar viagem. Realmente muita coisa mudou naquela garota, porque ela se foi transformando nesta pessoa realmente passageira, fluida e curiosa, enquanto o trem rola desbravando o desconhecido. Vou observando detalhes e absorvendo essências. Sem nostalgia ou ansiedade pra chegar a um destino, vejo que as peças do quebra cabeça chegam e vão se ajeitando, conforme aguento e permito, porque tento viajar leve. Com os olhos abertos, enfocando nas mudanças da rota, vou me deixando seduzir a continuar a jornada, porque, afinal, com ou sem óculos, nesta minha nova idade, meu coração enxerga muito melhor. "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são." Protágoras (490 a.C. - 415 a.C.)

Agosto 2017

2 comentários


mmgazzi67
28 de set. de 2020

novamente, excelente reflexão. Só entende quem está na mesma sintonia.

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Branca Martins
Branca Martins
19 de jul. de 2022
Respondendo a

e os anos vão rolando as peças pra lá e pra cá, tentando dar um jeitinho de encaixar sem espanar... bjo

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