A OUTRA (Parte 4 - "Gregório e seus amigos")
- Branca Martins

- 11 de abr. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2022
Adelaide já estava na cama, quando Gregório ligou e disse que estava vindo. Ela resmunga, diz que é tarde, pede pra não vir, porque ela tem que trabalhar no dia seguinte. Ele choraminga, diz que está com saudades, insiste, fica bravo, porque afinal já faz um mês que não a vê. Eles discutem um pouco e no final ela cede, mesmo porque perdera o sono.
Desligou o telefone, irritada por sua fraqueza em manter o NÃO.
Durante um mês ele havia ficado com a irmã, resolvendo assuntos de família e nem sequer havia ligado. Só a procurava, quando estava nervoso, sozinho ou depressivo e ela sempre o aceitava sem reclamar, mesmo quando esteve casado, porque era seduzida com palavras doces e promessas que iria se separar.
Ele chegou bonzinho e os dois foram pro quarto em silêncio.
Vovó Ecco estava dormindo e Adelaide não queria que ela acordasse. Tio Anselmo a havia apelidado de Vó Ecco porque ela sempre dizia " È così, è cosi!”. Uma vez que sua mãe havia falecido no parto, os avós a haviam criado como filha, desde o nascimento, e lutaram pela sua educação. Cursou Ciências Contábeis e começou a ajudar na floricultura dos avós, a "Ecco la Flora". Quando o avô partiu, ela assumiu o negócio e se aproximou ainda mais da Vó Ecco. Sabia que jamais a abandonaria.
Seu pai, que a havia abandonado ao nascer, se casou de novo, teve outros filhos e às vezes aparecia, pra pedir dinheiro emprestado que nunca devolvia. Ela sabia que ele usava algum tipo de substância, mas nunca conseguiu confrontá-lo. Ela tentava ficar longe dele e lhe dava dinheiro pra que ele fosse logo embora.
Odiava dizer NÃO.

Sua freguesa, Melody, um dia presenciou uma cena que ele fez na Floricultura e esperou que ele saísse pra conversar com Adelaide sobre
dependência química. Ela lhe disse que entendia muito bem do assunto, porque há anos convivia com aquilo. Sentiu-se envergonhada, não queria conselhos, mas ouviu a freguesa, porque ela realmente tocou em alguns pontos que mexeram com ela. Com o tempo, Melody se tornou sua confidente e Adelaide lhe contou sobre sua vida, inclusive sobre seu relacionamento secreto com Gregório. Precisava muito conversar sobre isso e ficou aliviada em poder confiar em alguém.
Vovó Ecco sabia que algo acontecia, mas a respeitava e não questionava.
Melody lhe deu um livro sobre "codependência”, um assunto que ela nunca tinha ouvido falar. Ficou curiosa, começou a ler e não conseguiu parar. A autora do livro parecia conhecê-la, pois era como se estivesse escrevendo sobre ela e para ela. Adelaide ficou extasiada e ao mesmo tempo assustada com o que estava lendo. Quando Melody aparecia na Flora, conversavam muito a respeito.
Adelaide acusava Grego de não a assumir, por estar sempre em conflito, por ser complicado e inseguro, embora fosse uma boa pessoa, gentil e inteligente. Esperava que a atitude carinhosa dela o sensibilizasse e ele mudasse. Tinha muita expectativa nesse relacionamento e temia perdê-lo, porque, afinal, se conheciam há muitos anos e haviam solidificado uma relação de apego e cumplicidade.
Ele vinha quando queria, ficava o tempo que lhe era possível, prometia que ia ajeitar a vida dele e iriam morar juntos.
Vovó Ecco gostava dele, por seu jeito educado e afetuoso, mas sofria porque entendia que a neta não era feliz, embora não soubesse os detalhes da relação.

Conversando com Melody e estudando sobre relacionamentos complicados, Adelaide começou a questionar sobre seu valor pessoal e percebeu que sua autoestima estava destruída. O tempo estava passando e sua vida se resumia em trabalhar e fazer planos para o futuro, aguardando Grego chegar, para compartilhar com ele. No entanto, quando ele aparecia, era só ele que existia: despejava suas preocupações, suas infelicidades, reclamava de tudo e não dava tempo nem clima pra que ela falasse sobre si. Cansados, dormiam juntos e, no dia seguinte, ele partia, sem dizer quando voltaria.
Adelaide aceitava tudo, sem conseguir dizer NÃO! Sentia na própria pele como era doloroso ser rejeitada, por isso evitava causar essa dor a alguém.
Procurava ser boazinha e agradável. Tinha até tentado mudar o visual e ficar mais atraente, mas ele nem percebeu. Quando começou a participar de um grupo de codependentes anônimos, descobriu que era muito comum as pessoas se esforçarem para agradar os outros e depois reclamarem que eram desvalorizadas e usadas. Notou que ser chamada de boazinha não era um elogio. Seria, então, um sinônimo de servil inferior?
Como conseguir dizer NÃO?

Aos poucos foi acumulando sentimentos mistos de amor e raiva dele e de si mesma. Justificou sua fragilidade com seus traumas de abandono, sem mãe, com pai ausente, compulsivo e desajustado. Sentiu medo do julgamento das pessoas e da dor de ser exposta pela sociedade machista, que perdoa os homens e crucifica as mulheres. Tentou perdoar Grego por ser depressivo, lutando contra seus fantasmas pessoais, e por também ter vindo de uma família problemática. Começou a ficar com pena dele, desculpando-o por ser homem, por ter instintos, etc... e se questionou se não deveria ter um pouco mais de paciência...
Acordou desse transe culposo em tempo e calou seu pensamento: "Nada disso, gritou alto para si mesma, você é tão culpada e, ao mesmo tempo, tão inocente quanto ele! Acorda!"
Durante o mês que Gregório ficou distante, ela suportou vários sentimentos confusos: ficou preocupada, depois irritada e rancorosa, mas acabou se acalmando. Chegou até a decidir não mais aceitá-lo. Terminaria o relacionamento. Não mais seria a outra, a segunda, a terceira, ou nada, ou ninguém na vida dele. Firme e positiva, viveria a vida dela, se amaria e se bastaria.

Mas teria que conseguir dizer NÃO!
Quando ele apareceu do nada, ela tremeu, se atrapalhou e recaiu. Amava-o muito e tinha medo de perdê-lo, se ela lhe negasse algo.
E lá estava ele em sua casa, deitado em sua cama, querido e apaixonado.
Entretanto algo não mais parecia certo. Por mais que gostasse dele, algo dentro dela já havia mudado. Havia tomado consciência de sua importância. Não aceitaria ser o que muitas pessoas esperam das mulheres: salvadora, salva-vidas, babá, mamãe, enfermeira ou cuidadora. Tampouco seria usada como "tapa buracos".

- Tudo muda, se eu mudo!
Acordou bem cedo, saiu do quarto sem fazer barulho, abriu a janela da cozinha, olhou distante para as montanhas ao fundo e sentiu-se flutuar.
Respirou fundo, puxou a energia pro alto, além do último chacra e transcendeu por alguns minutos.
Vovó Ecco já estava cuidando dos morangos e aguardou um momento para se aproximar. Adelaide abriu os braços e foi abraçá-la com carinho.
- Bom dia, amore mio, filha amada. Que delícia de abraço!
- Vovó, estou tão leve hoje! Estou saindo pra Flora! Não se assuste nem se preocupe, porque Gregório está no quarto, ainda dormindo. Quando ele acordar, se você quiser, tome um café com ele.
Vovó se espantou porque, pela primeira vez, ela comeu umas frutas e saiu sem preparar a mesa do café para ele. Em geral, ela o esperava acordar, tomavam o café juntos e abria a floricultura mais tarde.

Hoje, não! Deixou o carro na garagem e foi andando, sorrindo pros matinhos nas calçadas, tomando o sol da manhã e pronta pra compartilhar sua energia com as flores.
Amava Gregório, mas estava decidida a nunca mais aceitar ser a segunda opção da vida dele e muito menos ser a segunda opção de si mesma.
- Primeiro eu!!! , suspirou. - Se eu não me amar, vou continuar mendigando que alguém me ame! Eu quero e mereço muito mais do que migalhas!
- Pois é, Adelaide - o universo sussurrou. - Sempre é tempo, desde que seja agora!
- Pois é - Adelaide confirmou - Não mais preciso me torturar, por não saber dizer NÃO aos outros, porque agora já aprendi a dizer SIM para mim mesma!
Gregório levantou, procurou por ela e encontrou um bilhete: “Bom dia, querido. Antes de sair, arrume a cama e deixe o quarto em ordem!"
- È così! - vovó pensou. - Parabéns, Adelaide, amore mio, filha amada!
- È così! - arrematou a escritora.




Explorar as complexidades da psique humana é a síntese da genialidade dos escritores, especialmente dos realistas. Expõem dramas humanos inimagináveis. Este conto nos põe em contato com o drama dos codependentes de forma clara e simples com a perspicácia e habilidade dos grandes realistas. Mais um brinde a seus leitores! Parabéns!
Muito bom!!