A MOÇA DA CAMISETA BC
- Branca Martins

- 27 de set. de 2020
- 2 min de leitura
(Se você ler a última frase, não vai precisar ler a história toda!)
Ela entrou na loja, vestindo uma camiseta escrita "I love BC". Eu não tive como evitar de ler e o fiz em voz alta. Ela me olhou brava, dos pés à cabeça, me mordendo com os olhos. Parecia odiar meu cabelo, minha roupa e minha voz. Talvez ela não tenha entendido que eu só estava lendo a camiseta dela.
Senti um calafrio, como se seu ódio mudo me dissesse: "Quem você pensa que é? Se continuar me olhando, eu enfio uma faca em sua barriga!"
Ela deveria ter uns trinta anos a menos e, certamente, era mais forte que eu. Resolvi desviar o olhar.
Ao sair da loja antes dela, tentei sorrir, simpática, submissa, como tentando lhe dizer que eu era inofensiva. Ela me olhou duro, me desafiando e me amaldiçoando com o olhar.
Perto de casa, encontrei um vizinho muito simpático, que me sorriu, abanou a mão, me cumprimentando com alegria. Tinha a minha idade, carregava um ar sofrido e me olhou suave. Nem isso me fez relaxar e tirar a lembrança de ter sido ferida pelos olhos da moça.
VOLTAR ATRÁS NO TEMPO E MUDAR A HISTÓRIA?
Meu subconsciente inconsequente fantasiou a noite toda, me fazendo sonhar que, se eu conseguisse reviver o que aconteceu, eu voltaria lá na loja e agiria diferentemente.
E A ENERGIA?
Respira! Acalma! Afinal, quem teve culpa? Ela, porque se sentiu ofendida? Eu, porque minha inocente petulância leu a camiseta dela? Afinal BC é o quê?
POSSO FALAR COM VOCÊ, GAROTA?
Você não viu em mim uma senhorinha de vários "entas", muitas rugas e cabelos quase brancos?
JUSTIFICANDO
Eu não tive intenção de irritar você! Talvez você nem estivesse brava comigo. Talvez estivesse brava com o mundo. Será que eu estava frágil e imaginei tudo aquilo?
O CONFRONTO
Verdade é que eu tive medo. Não recebi facadas nem dentadas, mas quase me deixo envenenar por uma energia ruim. Fiquei assustada porque senti no ar, ódio, a arma humana mais poderosa que existe.
OUVINDO O POVO INTERIOR
Depois da auto derrota, eu ainda tive que ouvir meu povo, no meu subconsciente, me criticar por me meter onde não fui chamada, por ter criado expectativas e por ficar ruminando bobagens.
ACEITA LOGO, VAI EM FRENTE!
Naquele momento de estresse, nem a elucubração filosófica nem a explicação racional conseguiram uma equação eficiente. Então afundei no vazio atônito e convenci a emoção e a razão a se entregarem, porque a solução deveria estar em outro lugar.
O FINAL Quando finalmente decidi “deixar pra lá”, encontrei a saída que poria paz ao final da história. Ela estava exatamente em "deixar lá", pra lá da encenação, pra lá do coração e bem além da razão, onde nada se explica, mas todos "deixam pra lá" e se perdoam.
CONEXÃO UNIVERSAL
Suponho que todos saibam que esse lugar existe, inclusive a moça da camiseta BC. O que eu vejo é que cada um explica, define e chama por nomes diferentes. Algumas pessoas até dizem que melhor mesmo é "deixar pra cá", bem pra cá, na nossa profundidade interior... e não pra lá!
AQUÉM OU ALÉM DA MORAL DA HISTÓRIA
Se uma de nós duas tivesse lembrado disso e tivesse conseguido “deixar pra lá” (ou talvez "deixar pra cá”) com certeza esta história não teria acontecido.




Interessante esse nosso sentimento de precisar da aprovação de todo mundo, né? Mesmo que 10 pessoas nos tratem bem no dia, se tiver apenas 1 que nos trate mal ou nos rejeite, ficamos pensando nesse 1 o resto do dia. Excelente reflexão,
I love BC too, mas faz tempo que não vou lá. 😊💖